PALAVRAS DE SEDA

Escrever é um ato solitário, é colocar-se em palavras. Palavras são como folhas de plátano soltas ao vento... em direção aos novos horizontes, voando irreverentes sem cordas para serem puxadas e sem lugar determinado para pousarem... sempre a favor do vento.
Assim é o ato da escrita, deixar fluir palavras que, voando devagar, ao caírem, adubarão terras distantes.

















































































































domingo, 25 de outubro de 2009

A FAVOR DO VENTO



Há uma envergadura medida milimetricamente na vareta de uma pipa, para que ela alcance altura e voe a favor do vento, sem pender nem para um lado e nem para o outro. Assim, somos nós quando projetados, não podemos cadenciar, nem ter medidas a mais, nem a menos, precisamos de equilíbrio, como a vareta de uma pipa.
Ao ser preparada, a vareta é raspada, farpas, lascas finas, frágeis e compridas são retiradas aos poucos; para ter-se a medida certa, o tamanho exato, o peso ideal. Assim, gradativamente, rotineiramente, pacientemente, a vareta vai tomando jeito, criando vida. Na rotina dos dias nos desgastamos, saem de nós algumas lascas, vamos amadurecendo, procurando a perfeição colocamos nossa essência na vareta que fica... e não nas lascas que se foram.
A pipa para ficar pronta precisa da vareta. Aí... aí vem a hora H, a hora de dobrar a vareta, a hora decisiva onde a pressão é feita com amor, onde a envergadura tem de ser gentil a ponto de não quebrar, medida, atada em linha de algodão. Os nós nas pontas da vareta asseguram a tranqüilidade de uma boa envergadura. Sim, os nós... são os nossos limites; ao conhecê-los sabemos até onde podemos ir para não nos quebrarmos, para nos dobrarmos, para sermos humildes sem nos destruir ou destruir os outros. Uma vareta muito rígida, ao ser dobrada, racha-se ao meio, solta farpas que ferem, machucam. Procurar o equilíbrio de uma dobra requer maturidade, longevidade e sossego.
Com a vareta pronta, delimitada e segura, firme na envergadura é hora de pegar a folha de seda, esticá-la e cortá-la na medida certa. Sem uso de tesoura. Unem-se as pontas, mede-se o tamanho, dobra-se a pequena parte que sobrou. Risca-se com a ponta do dedo. Depois passa-se a unha por cima, de ponta a ponta. Pega-se a linha e passando-a pela parte dobrada vai-se cortando o papel, com calma e segurança. A linha faz parte da pipa. É quem delimita, é quem corta. Quando precisamos descartar algo que nos sobra, ou que não nos faz bem, que nos machuca, é nossa consciência quem se encarrega disso. Alguns a chamam de ID, eu prefiro dizer que é minha linha interior.
E para que o papel receba a vareta envergada e se torne pipa é preciso que seja colada. Não me venha com qualquer cola... essa de loja, super-mercado, de frasco branco, transparente e fina. Não!... essa não!... é necessária uma cola feita de água e polvilho, feita em latinha de massa de tomate, esquentada na chama de um foguinho de quintal de terra batida. Só assim conseguimos uma boa cola. A alquimia dessa mistura é o prazer do feitio. O grude corresponde à magia de cada um, usando os quatro elementos: terra, fogo, água e ar. Com muito Cuidado. Passa-se a cola nas beiradas no papel, quantidade e qualidade da cola ajudam a fixação, e para sentir se tudo vai bem precisamos passar a cola com o dedo. Assim, se o polvilho “empolou” desfazemos os caroços com o dedo, se a cola está muito grossa colocamos mais pressão no dedo e se está fina cuidamos para que não deslize para o centro da pipa.
Ao fixarmos nossa temperança na vida precisamos dessa cola caseira. Saber dosar. Melhor ainda... saber arrematar as beiradas é ponto positivo para sermos felizes. Nossa alquimia interior sabe o ponto certo para tudo que precisamos, nosso instinto para o amor é maior que tudo, é o que garante nossa sobrevivência.
A pipa está pronta, basta o cabresto, esticar a linha e soltar a pipa. A vareta dá equilíbrio, a cola garante imunidade e firmeza, a linha conduz a pipa. É necessário vento, é necessária mão que solta, mão que conduz e mão que recolhe. Também precisamos de vastidão, horizonte sem fim, sem interferências humanas. O céu que recebe a pipa é o sonho indispensável para voar, para conhecer outras paisagens, para atingir novos ideais.
Rita Elisa Seda


Jornalista, Romancista, Cronista, Poeta, membro da Academia Valeparaibana de Letras e Artes - AVLA, membro da União Brasileira de Escritores - UBE, escreve para diversos jornais e revistas da região do Vale do Paraíba - SP. Livros que escreveu: Ciber@migos Pontocom; TROFÉU, Retalhos de Outono, DESERTOS, Pipa Guerreira, Fábulas para Seishum e Cora Coralina: Raízes de Aninha. Ama a vida!

Um comentário:

Benilson Toniolo disse...

Sei não, Rita, mas acho que você arrumou mais um fã.
Parabéns pelo trabalho, pelos textos, pela formação, pela carreira...