PALAVRAS DE SEDA

Escrever é um ato solitário, é colocar-se em palavras. Palavras são como folhas de plátano soltas ao vento... em direção aos novos horizontes, voando irreverentes sem cordas para serem puxadas e sem lugar determinado para pousarem... sempre a favor do vento.
Assim é o ato da escrita, deixar fluir palavras que, voando devagar, ao caírem, adubarão terras distantes.

















































































































sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A MENINA DOS FÓSFOROS




A menina caminha pela calçada com uma caixa de fósforos nas mãos. Ninguém olha para ela, ninguém compra fósforos hoje em dia. Mas, ela insiste na triste função de vendedora de fósforos, afinal foi esse o encargo que sua mãe lhe destinou... há anos. Ela agarra aquela caixa como se fosse seu tesouro, era a única que havia sobrado, as outras foram molhadas pela chuva fria de dezembro, dizem que é por causa do aquecimento global, mas a menina sabe... faz muitos e muitos anos que em dezembro, principalmente perto do Natal: chove muito.
A menina quer atravessar a rua, precisa ir para o outro lado e os carros buzinam insistentes. Um motorista até lhe aponta o dedo xingando “não vê que o sinal está fechado para você?!” A menina não se importa, só quer ir para a outra calçada. Atravessa entre os carros e perde um de seus chinelos; nem liga... pois são tão grandes mesmo, deixa o outro na esquina, melhor ficar descalça.
No outro lado as vitrines são mais festivas, tem uma loja de chocolate onde o Papai Noel é enorme, sentado numa cadeira dourada, distribui gotas de chocolate. Ela quer uma, entra na fila, todos a olham, ela sorri, todos viram os rostos, seguram a carteira com força e algumas mulheres agarram suas bolsas. O vendedor atento, convida a menina a se retirar. Ela sai cabisbaixa, olhando o espírito natalino, caído na sarjeta.
Continua pela calçada e sente um cheiro forte de carne assada que vem do restaurante. Espia pela porta de vidro e se delicia com as carnes, saladas e manjares à mesa central. Todos rindo e servindo-se, a menina olha e engole a saliva quente produzida por causa do aroma das especiarias. Alguém a vê, um menino, ele sorri para ela, ela se assusta, abaixa a cabeça e depois a levanta devagar, o menino continua a sorrir. Ela faz um aceno, o menino retribui. Nisso uma mão enérgica puxa o queixo do menino em direção ao rosto do pai e o impede de olhar para a rua. A menina se olha, seu vestido não é assim tão feio, é o melhor que ela tem, o colocou porque é Natal. Está sem sapatos, mas isso não é motivo para tantos olhares furtivos, tantas caras feias e o pior... tanta desconfiança.
A chuva recomeçou. A menina anda pela avenida sem se importar com o vento frio que veio com o efeito El Niño dos corações das pessoas. Olha para suas mãozinhas tão geladas... duras de frio. Lembra-se dos fósforos, sim... eles são mágicos. Ela pode aquecer-se nas chamas, ou então pegar um sapato novo no clarão do fósforo. Mas não, não se importava com isso - há tantos anos fez isso.
Agora só havia uma caixa e precisa vendê-la, precisa aquecer e aquecer-se. Sabe como usar os fósforos... são mágicos! E, mesmo que mágicos, isso não importa para ela, não queria e não quer a mágica dos fósforos, quer a mágica do coração, quer o calor humano e isso o fósforo não poderá lhe dar. A mão dela continua gelada, o vestido ensopado grudado ao corpo, descalça chapisca nas poças d´água. O povo natalino, engavetado nas vitrines, dentro das lojas e restaurantes olha a menina que tremendo passeia debaixo da chuva. E, ela, a menina dos fósforos, que há anos vagueia pelas avenidas movimentadas de espíritos natalinos, nem olha mais para as pessoas, tem a mira certa, vai até a lata de lixo e ali joga sua caixa de fósforos.


Rita Elisa Seda

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