PALAVRAS DE SEDA

Escrever é um ato solitário, é colocar-se em palavras. Palavras são como folhas de plátano soltas ao vento... em direção aos novos horizontes, voando irreverentes sem cordas para serem puxadas e sem lugar determinado para pousarem... sempre a favor do vento.
Assim é o ato da escrita, deixar fluir palavras que, voando devagar, ao caírem, adubarão terras distantes.

















































































































segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

ENCHENTE EM SÃO LUIZ DO PARAITINGA












Queridos e queridas,
não sei como escrever o que estou sentindo. Na verdade não é um sentimento novo. Já vi duas grandes enchentes. A primeira foi na passagem do ano de 1999 para 2000, em Santa Rita do Sapucaí, MG. Minha filha, meu pai e minha mãe fora resgatados de bote pelos bombeiros e seguiram para Pouso Alegre onde ficaram na casa de minha irmã Letícia. Eu fui para Santa Rita e fiquei na casa até a água baixar. Depois fiquei por lá algum tempo, até que a casa pudesse ser novamente habitada. São etapas tristes. A segunda grande enchente foi a de Goiás, eu tinha acabado de chegar na cidade e a paisagem era desoladora.
Ontem, meu coração ordenava de hora em hora: 'Vá para São Luiz do Paraitinga'. Eu, assustada, não queria ouvi-lo, coloquei uma música bem alta, cantei até, escrevi bastante e quando tudo sossegou... a voz voltou!
Bem... eu tive de ir!
A estrada estava ótima, nenhum anúncio de catástrofe. Os carros que seguiam à minha frente e que por mim passavam tinham sinais de 'praieiros' daqueles que curtem a vida, amam o litoral. No acesso á linda São Luiz eu não vacilei, saí da fila de turistas.
Logo na entrada, na Igreja São Benedito eu deixei o que arrecadei para os desabrigados. Conversei com a Selmi Rosa do Nascimento. Ela me contou que sua casa desmoronou e que perdeu tudo, seu filho tem problema nos rins e precisa de remédio diário, sua filha foi operada do joelho e quase não consegue andar. Mesmo assim, na hora que ouviram o barulho da água chegando, as pessoas gritando, levantaram e saíram da casa. Disse-me que é uma lutadora, seu marido faleceu há 9 anos, é diarista e, com isso, conseguiu criar os filhos, ter uma casa e dar estudos para eles. "Só que agora (ela me mostrou um saco com panos de prato e material de cozinha) o que vai adiantar pegar tudo isso se me falta o necessário, o lugar para colocar as panelas e os alimentos? Não tenho mais casa, não sei se terei forças para lutar novamente". Olhei bem nos olhos dela e vi que ali estava uma mulher de fibra e que ela era capaz, sim, de lutar pela familia. Disse isso a ela.
Saí dali e fui para o centro histórico.
Não há o que falar para pessoas que perderam parentes e amigos, para quem perdeu vidas humanas. Mas, para quem perdeu bens materiais podemos falar. Eu não fiquei calada, a cada morador que eu encontrava, em cada grupinho onde escutava o choro e desespero, para os que lideravam resgates, para os comerciantes que limpavam suas lojas e familias que estavam com malas, eu parei e contei o que aprendi.
Aprendi que uma enchente acaba sim, com uma casa, com uma igreja, com um comércio e um carro. Aprendi que os albuns de família, os livros, revistas e jornais que guardamos há tantos anos num minuto se dissolvem. Aprendi que os utensílios de cozinha não devem ser lavados (mesmo que seja com água sanitária) e guardados, o cheiro e gosto da água impregna de tal forma que durante anos não saem. Aprendi que quando pensamos que tudo acabou, pois a água baixou, aí... aí, então, a tragédia continua. A falta de água potável, água corrente para o banho e lavagem das coisas, deixa-nos sem ação. O calor vem com tudo. Aquela lama começa a secar e, os alimentos, animais mortos (cães, gatos e muitos, muitos ratos), ficam em tal estado de putrefação que tudo cheira mal. Mas aí já estaremos acostumados com a fedentina que impregna na gente por todos os poros (há um óleo que encalacra em tudo e cheira pior que pocilga).
O pior é quando chove e voce acha que pode acontecer tudo de novo.
São dramas que vivi na pele. Coisas que não quero que outros passem. Então, achei que o melhor era conversar com os que eu encontrei pelo caminho em São Luíz. Falar sobre esperança, falar que hoje meus pais moram nessa mesma casa que um dia foi inundada (casa alta, com porão, e mesmo assim a água entrou). O melhor foi ver que as lágrimas deram uma trégua quando eu lhes contei sobre a Cidade de Goiás, também Patrimônio, como é a linda São Luiz do Paraitinga. Contei-lhes da garra dos vilaboenses que unidos reergueram a cidade. Expliquei que a união agora é necessária. O material se foi, mas o maior patrimônio é o Imaterial: o ser humano e sua cultura, sua crença. A igreja se fora mas os casamentos que ali foram sacramentados existem, os batizados também, as missas só são válidas quando acreditamos e temos fé. É hora de provar essa fé. A cultura de uma cidade que ama a música não está no instrumento que rodou na enchente e sim na cabeça dos que compõe e na garganta dos que cantam. Um ser humano vivo vale mais que todas as edificações de uma cidade.
A hora é de fazer uma associação de moradores em prol de todos. Unidos angariar fundos para reconstruir. Tenho certeza que a população de São Luíz do Paraitinga tem garra para isso, são enraizados na força do Vale do Paraíba.
Para que o governo e as empresas privadas apoiem financeiramente a reestruturação de todo Patrimônio Arquitetônico destruído é preciso que o povo esteja unido, com diretrizes nas mãos, com vontade e, principalmente, que acreditem em um lindo futuro para a querida São Luíz do Paraitinga.
Rita Elisa Seda

2 comentários:

++lindorui disse...

Que TODOS Vocês estejam irmanados no desejo de...VENCER...!!!
É necessário que o Governo vos apoie fortemente. Mas, para além das perdas materiais, estão aqueles que vão necessitar de uma enorme ajuda psíquica.
Um abraço.
O meu lamento.
Rui
1lindomenino

Silvinh@ disse...

Oi, Rita!!! Triste ver tantas pessoas vendo seus sonhos, suas casas, sua vida, tudo que muitas vezes foi conquistado com muito suor, esforço e luta diária, e até pessoas queridas; indo embora...
Tudo o que você relatou me fez lembrar de uma música do Pe. Fábio de Melo: Perdas Necessárias...


Deixa partir
O que não te pertence mais
Deixa seguir o que não poderá voltar
Deixa morrer o que a vida já despediu
Abra a porta do quarto e a janela
Que o possível da vida te espera
Vem depressa que a vida precisa continuar
O que foi já não serve é passado
E o futuro ainda está do outro lado
E o presente é o presente que o tempo quer te entregar

Fala pra mim
Se achares que posso ouvir
Chora ao teu Deus se não podes compreender
Rasga este véu do calvário que te envolveu
Tão sublime segredo se esconde
Nesta dor que escurece o horizonte
Que por hora impedem os teus olhos de contemplarem
O eterno presente do tempo
O ausente o presente em segredo
Na sagrada saudade que deixa continuar

Deixa morrer o que a morte já sepultou
Deixa viver o que dela ressuscitou
Não queiras ter o que ainda não pode ser
É possível crescer nesta hora
Mesmo quando o que amamos foi embora
A saudade eterniza a presença de quem se foi
Com o tempo esta dor se aquieta
Se transforma em silencio que espera
Pelos braços da vida um dia reencontrar.

QUE DEUS DÊ FORÇAS PARA ESSAS PESSOAS LUTAREM,SE REERGUEREM; CORAGEM, ÂNIMO, ALÉM DO MATERIAL, QUE É NECESSÁRIO TAMBÉM!!!

É POSSÍVEL CRESCER NESTA HORA...
Beijos!!!

Silvinha