PALAVRAS DE SEDA

Escrever é um ato solitário, é colocar-se em palavras. Palavras são como folhas de plátano soltas ao vento... em direção aos novos horizontes, voando irreverentes sem cordas para serem puxadas e sem lugar determinado para pousarem... sempre a favor do vento.
Assim é o ato da escrita, deixar fluir palavras que, voando devagar, ao caírem, adubarão terras distantes.

















































































































segunda-feira, 1 de março de 2010

Ser Hesicasta Hoje




Dizem que o mundo vai acabar em 2012, dão data precisa e tudo mais. Têm pessoas que vivem nessa expectativa, nessa tensão, com medo. Eu vivo a cada dia, como se o mundo fosse acabar amanhã cedo. Assim faço tudo que preciso fazer hoje. Esse meu tudo é diferente do seu tudo, mas tenho certeza que você também quer paz. Só que a minha paz pode não ser a sua paz. A minha é parar com tudo, ir para a janela e ficar olhando o céu, me deixar levar pelas nuvens, ou , se chove, correr entre os pingos d´água sem me molhar, afinal para isso é que serve a imaginação, conseguir o impossível, extrapolar os limites do ser.
Existem pessoas que não conseguem isso, aliás nem conseguem tempo para parar, ainda mais para ir até a janela, pior... nem têm imaginação. Essas pessoas têm medo dessa data apocalíptica, pois sabem onde estarão e o que estarão fazendo quando isso acontecer, pois suas vidas são uma eterna rotina, seus gestos seguem padrões e seus pensamentos não ultrapassam obstáculos.
Já vi a morte de perto e lutei pela vida. Se hoje não tenho rotina é porque acredito no destino. Faço o que gosto (coisa rara hoje em dia) e desejo o melhor para todos os que conheço e para os que nem conheço. Isso é amor!
O princípio básico da vida é saber se está vivo. Você já se viu assim? Já parou e sentiu a vida em você? Parece simples, mas não é. Em Goiás, tive um mestre beneditino, Padre Pedro , italiano, hesicasta, vivia no mosteiro, mas tinha sua pequena casa no alto, longe do alojamento, vivia sua reclusão. Ele me ensinou a Oração do Peregrino Russo. Um dia me surpreendeu, me disse que para que eu vivesse em paz deveria sentir-me viva, e para isso não precisava fazer tantas orações como eu fazia. ‘Não procure a oração fora de você, sinta-a em seu corpo, a cada respiração’, e me ensinou os primeiros passos. Difíceis, todos eles. Nessa época o hesicasta Jean-Yves Leloup ia sempre na UNIPAZ de Goiânia e dele eu ouvi algumas explicações de como controlar minha respiração como uma oração. Treinei dias, semanas, meses, dois anos. Fiz uma inscrição do Kyrie Eleison numa tábua e ali coloquei um vermelho coração de pedra, durante todos os anos em que morei em Goiás essa tábua ficou embaixo do guatambuzeiro, sob chuva ou sol, agüentou firme, até que na noite em que eu deixei a cidade coloquei-a na porta da casa do Sebastião Curado, meu vizinho, meu irmão de alma, confidente para tudo.



Sei que a cada respiração minha o Kyrie acontece em mim. Isso me dá força e me deixa em paz. Basta-me a paz, pois ela esta presente quando tudo está bem. Não posso estar no Haiti, no Japão, no Chile, ajudando as pessoas, às vezes, até atrapalharia. Mas posso respirar a paz por elas. Se eu estiver aplumada, em harmonia com o Criador, poderei ajudá-los de onde eu estiver. Como uma bússola que reconhece o norte.
Rita Elisa Seda

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