PALAVRAS DE SEDA

Escrever é um ato solitário, é colocar-se em palavras. Palavras são como folhas de plátano soltas ao vento... em direção aos novos horizontes, voando irreverentes sem cordas para serem puxadas e sem lugar determinado para pousarem... sempre a favor do vento.
Assim é o ato da escrita, deixar fluir palavras que, voando devagar, ao caírem, adubarão terras distantes.

















































































































domingo, 15 de agosto de 2010

NOSSA MÚSICA INTERIOR

Há música em tudo, mesmo no silêncio. Se não fosse assim Beethoven não conseguiria compor a Nona Sinfonia. Na solidão das palavras a melodia traz sons do coração. Todos temos uma música interior.
Logo que uma africana fica grávida, ela e muitas amigas vão para o meio da floresta, oram e meditam até que surja a canção da criança. Elas a cantam em voz alta, retornam à tribo e ensinam a canção para todos. Ao nascer, a criança é saudada com sua própria canção. Em todas as comemorações importantes é a canção individual que será cantada. O melhor de tudo, é que se algum dia a pessoa faz algo errado, é levada ao centro da comunidade e todos lhe cantam sua canção.

A correção não é ligada ao castigo e, sim, à lembrança da identidade mais profunda – o amor! Inclusive quando ela está de partida dessa vida, os amigos cantam sua música para que possa seguir viagem.


Será que cada um de nós consegue fechar os olhos e ouvir sua própria canção? Tomara que sim... isso é conhecer-se por inteiro. O verdadeiro silêncio é aquele onde ouço meu ritmo e desacelero o corpo.

Ouvir o rio que passa, os pássaros nas árvores, os galhos ao vento, a abelha procurando néctar... é fácil! Difícil é ouvir a brisa da manhã, a nuvem ligeira, a folha que cai e o desabrochar de um botão. Para isso precisamos silenciar a alma, precisamos interagir com o Universo.

Construir um mundo fora de nós é simples. Difícil é viver, cinco minutos que seja, no nosso mundo interior e, ali, ouvir nossa música.


O que torna redonda a dura pedra no leito d’ água é a canção do rio. O que aduba o solo arenoso para que haja plantio é o som das folhas caindo. O que acorda os animais noturnos é a luz das estrelas. As conchas vão e vêm com a maré porque ouvem a canção de ninar do mar. Ouvir o inaudível é estar em paz, é aceitar-se puramente.

A mãe sempre conhece a canção do filho. É aquela que vem aos lábios logo no primeiro dia, no primeiro olhar e no primeiro choro... na primeira amamentação.

Aquele balbuciar de lá, lá, lá... no ritmo certo, e a criança se acalma, dorme e sorri.

Cuidemos de apreciar a canção da Terra, escutá-la é questão de sensibilidade. Cantá-la é questão de solidariedade. Quem sabe, um dia, unidos, possamos cantar a canção da mãe Terra como ela merece.

Rita Elisa Seda 
Cronista, poeta, biógrafa, fotógrafa e jornalista.
Crônica publicada em 16 de agosto de 2007 no jornal Valeparaibano (hoje, O Vale).

7 comentários:

Silvinh@ disse...

Rita Elisa, todo mundo tem música interior, mas quase ninguém tem conhecimento dela; ou mesmo não a experimenta; pois o barulho externo canta mais forte; nos privando de ouvirmos nossa própria música, nossa própria canção, nossa própria vibração...
A música dentro de nós é um padrão de vibrações. Na verdade, audíveis ou não, tudo na vida é vibração, como a teoria das cordas quânticas podem testemunhar. Criamos e atraímos as experiências que ressoam com as vibrações que nós mesmos estamos criando. Depende de cada um... No corre-corre de nossas vidas, parar para ouvir nossa música interior, requer muito silêncio, muito conhecimento interior, muita disciplina.
Num mundo tão barulhento, saber ouvir nossa música interior é uma grande virtude.
Silenciar a alma, fazer uma viagem ao nosso interior, é difícil demais, pois esbarramos com nossos defeitos e limitações. E, nossa canção fica cada vez mais inaudível... Então faço minhas, as suas palavras: “Construir um mundo fora de nós é simples. Difícil, é viver cinco minutos que seja, no nosso mundo interior e, ali, ouvir nossa música. Aquela música que embala a nossa alma e refaz as nossas forças, dando-nos equilíbrio (corpo, alma e espírito). A você desejo muitos momentos de música interior...
Forte abraço!!! Silvinha

Rita Elisa Seda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rita Elisa Seda disse...

Silvinha querida amiga, creio que se fizermos a proposta de ficar a cada dia, pelo menos cinco minutos em silêncio absoluto, somente voltados para nosso interior, podemos, então, ouvir nossa música interior. Daqui uns dias colocarei no blog uma crônica onde constatei algo extraordinário sobre isso. foi quando minha neta nasceu... há dois anos. Mas isso é para depois. Com certeza você tem uma bela melodia natural de Silvinha, algo parecido com Kyrie Eleison, pois os vídeos que me mandou são lindos. Beijos, felicidades e a paz!

Silvinh@ disse...

Rita Elisa, adoro música, a tenho nas veias...principalmente àquelas que me levam a uma comunhão com Deus (gospel). Adoro pegar meu violão e através da música, exaltar, louvar,agradecer a Deus; e também pedir, por que não; sua proteção, seu perdão, sua misericórdia...
Enfim, gosto de levar às pessoas a terem um encontro com Deus através da música (no ministério que Deus me deu, na comunidade onde participo/São José/ Tenho uma equipe de música responsável por uma das missas da paróquia, no final de semana).
Gosto de outros gêneros musicais, mas as que mais me preenche são: gospel, gregorianas,clássicas. Não gosto de música barulhenta, não!!!rsrsrsrs
Há alguns anos, participei de um trabalho a nível de diocese, com músicas gospel. Fizemos na época uma "fita cassete", (pois Cd era raro demais...rsrs) com músicas exclusivas, de nossa autoria (letra e melodia)...
Fiquei super feliz, pois de 12 músicas, 4 das escolhidas, eram minhas. Não para a minha glória, mas sim para a Glória de Deus. Qualquer dia desse, eu mando pra você...minhas músicas exclusivas...rsrsrsrsrs
A partir de hoje, Rita Elisa, vou aceitar sua proposta de ficar a cada dia, pelo menos cinco minutos em silêncio absoluto, voltada para meu interior, buscando ouvir minha música interior...
Beijos!!!
Forte e carinhoso abraço, amiga!!!

Silvinha

Rita Elisa Seda disse...

Silvinha, ouvi você cantando, tem talento musical, tem voz. Eu sou desafinada, mesmo assim canto e espanto. Mas você tem linda voz. Continue nessa trajetória de compor e cantar. Acho que será fácil de você ouvir sua música interior, ainda mais que gosta de gregoriana... posso até apostar!
Beijos, felicidades e a paz!

Inajá Martins de Almeida disse...

Querida Rita
Venho buscando conhecer suas crônicas e, amante da música que sempre fui e sou, encontrei nas suas palavras, muito de mim. A música me acompanha, me canta, me encanta, fala de mim. Embala meus sonhos, faz meu interior calar. As árvores, os pássaros, a água do riacho, as nuvens que se tocam silentes, tudo é um concerto deslumbrante para nossa alma. Meu filho é Musicoterapeuta, conforme pode ser visto no site http://www.musicoterapiaclinica.com.br/ e eu sempre digo que a primeira sessão, mesmo sem o saber, fui eu quem fiz a ele, quando chorava por alguma dor, recém nascido, em meus braços eu entoava canção de ninar, que fiz para ele, especialmente. Pouco depois, tranquilo em meus braços dormia. Música, divina música. Lindo seu artigo. Um beijo / Inajá Martins de Almeida

Rita Elisa Seda disse...

Inajá, querida... que lindo seu comentário. Essa primeira canção que nos vem aos lábios quando acalentamos uma criança, para mim, é o som de nossa alma. Ao ler o que você aqui deixou eu pude escutar o som das palavras. Tudo lindo. Obrigada. Felicidades e a paz!