PALAVRAS DE SEDA

Escrever é um ato solitário, é colocar-se em palavras. Palavras são como folhas de plátano soltas ao vento... em direção aos novos horizontes, voando irreverentes sem cordas para serem puxadas e sem lugar determinado para pousarem... sempre a favor do vento.
Assim é o ato da escrita, deixar fluir palavras que, voando devagar, ao caírem, adubarão terras distantes.

















































































































quarta-feira, 4 de agosto de 2010

UMA MALA E UMA PORÇÃO DE SONHOS

Ele partiu alegre. Levou na mala, camisas de mangas compridas, calças, duas botinas, um capacete, algumas meias, várias cuecas, três toalhas, muitos livros, apostilas e cadernos. Um video sobre o Vale do Paraíba, milhares de sementes de árvores frutíferas, Cds de músicas brasileiras, remédios, um chinelo Havaiana e uma porção de sonhos. Nessa grande porção de sonhos havia varetas, papéis de seda, pacotes de cola branca, uma tesoura sem ponta e dezenas de carretéis de linha 10.
Lá se foi novamente para a Àfrica, para o centro do continente, para a região do deserto, para Lucapa. Há quase um ano ele trabalha nessa região, ainda não conhece tudo, mas o que viu bastou para modificar seu pensamento, seu modo de vida e sua alimentação.
Nos falamos todos os dias pela Internet. Nos vemos. Mesmo com a diferença de fuso horário conseguimos encontrar um tempo para nossas conversas. Ele sempre tem novidades. Afinal tudo lá é diferente. O jeito de se vestirem, a música, a religiosidade, a identidade familiar, a culinária, o trabalho, o português misturado com o dialeto chokoe... algumas palavras já lhe são familiares como ser chamado de timbare (homem branco), andar de candonga (circular), carne de ungulo (porco), o cumprimento: mene queno; a resposta: moani. Tudo isso já faz parte de sua rotina.
Andar pelas tribos, passear pela pequena cidade, dirigir pela savana e subir na torre para ver a imensidão do centro africano traz felicidade para sua alma.
A dieta alimentar dos moradores é essencialmente a mandioca, mas tem épocas que há iguarias como o macosso (lagarta de mariposa), comer carne de cachorro (isso quando aparece algum por lá) e raiz de plantas.
Nos cultos religiosos as mulheres sempre comparecem com o traje típico, saia longa bem estampada, camisa de manga comprida e turbante do mesmo pano da saia, cantam e dançam no dialeto tribal. Não há onde sentar-se, por isso trazem suas cadeiras – artigos de luxo, para a igreja. Todos saem satisfeitos.
As crianças não brincam, quase não há brinquedos. Precisam ajudar a mãe a descascar, socar e secar a mandioca. Também ajudam a buscar água em algum poço distante.
Por causa das minas terrestres há crianças e adultos mutilados... e sempre encontra-se uma mina por perto. Seja no meio do mato, no quintal, na beira da estrada ou até mesmo (como aconteceu há pouco tempo) no meio da estrada. Não há como prever se aqui ou ali tem mina. Equipes saem vasculhando cada milimetro, mas ainda há muita terra por verificar.

Fiquei impressionada com as condições irrisórias de higiene. Com a falta de água e luz.

Ele já se acostumou com tudo isso... mas tinha uma coisa que o incomodava, a falta de brincadeiras infantis. E, por isso, levou seus sonhos na mala.
Chegou há poucos dias, a primeira coisa que fez foi chamar as crianças e ensiná-las a fazer uma pipa. Afinal, esse sempre foi seu brinquedo favorito. Diz que não há no mundo um sentimento maior de liberdade do que ver uma pipa no alto. E, ainda mais, se você for o condutor da pipa. Tinha certeza que as crianças iriam gostar. Realmente, elas gostaram, cada um fez sua pipa. Emoção maior, pipa no ceu africano. Pipa voando irreverente pelo azul límpido, sem nuvens, conduzida por um vento calmo. As crianças brincavam satisfeitas. Restritas à pequena área de segurança, elas davam linha à pipa e davam asas à imaginação... “a minha estar a ser gafanhoto, pois, pois... a minha estar a voar como águia...”


Acabou -se o dia. Todos foram para casa. Casa simples, a porta é o vão de entrada, janela é a abertura lateral, sem paredes internas.
No outro dia, bem cedinho, alguns meninos vão ao acampamento e perguntam pelo timbare.

Todas as crianças com a pipa na mão. Ele vai até o portão. Recebe as crianças. Fala com elas. Escuta seus argumentos. Não sabe como resolver a questão. Ficou triste.

Vai para a barraca e liga o computador, me chama. Conversamos.
“As crianças estiveram aqui. Me trouxeram a pipa. Me disseram que a pipa é muito bonita mas que não serve para comer. Estão com fome. Me disseram que trocam a pipa por algum tipo de comida. Não sei o que fazer...
Eu sabia que minha resposta nortearia sua conduta. Aquela reação não podia ser das crianças, mas, sim, dos pais. Eu pensei, orei, enxuguei uma lágrima e respondi: “Sempre que for fazer pipa com as crianças leve algum tipo de alimentação. Não troque a pipa por alimento. Essas crianças precisam de alimentar o corpo, entregue-lhes comida. Mas elas também têm outra necessidade, elas têm fome de sonhos e a pipa é um alimento para a alma. As crianças precisam e merecem brincar!”
Ele terminou em dialeto chokoe... “mono canaua” - que quer dizer... “estou forte”.

Rita Elisa Seda
Crônica publicada no jornal Valeparaibano, quinta feira, 08 de maio de 2008

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