PALAVRAS DE SEDA

Escrever é um ato solitário, é colocar-se em palavras. Palavras são como folhas de plátano soltas ao vento... em direção aos novos horizontes, voando irreverentes sem cordas para serem puxadas e sem lugar determinado para pousarem... sempre a favor do vento.
Assim é o ato da escrita, deixar fluir palavras que, voando devagar, ao caírem, adubarão terras distantes.

















































































































sábado, 4 de setembro de 2010

QUEIMADAS

Tentei ficar quieta, na minha. Muitas vezes vi o fogo consumir pastos, árvores e casas. Na verdade minha relação com o fogo não é lá essas coisas. Quando criança, morando ao lado de um posto de gasolina, vi os latões de gasolina pegando fogo, as chamas avançando, minha avó jogando água com balde, meu tio entre as chamas tampando a boca do tanque subterrâneo. Naquela época era necessário coar a gasolina para ser estocada em tanque e isso sempre acarretava acidentes, esse foi um deles. Como eu disse minha relação com o fogo é algo desastroso, a única vez que fui internada quando criança foi porque fiquei queimada no peito e barriga, pensei que a cicatriz da queimadura nunca ia sair... mas, sumiu, assim como o trauma por causa desse acidente. Depois, jovem, queimei toda a mão direita. Sem marcas, também. Alguns anos depois, casada, com os filhos em casa, o botijão de gás pegou fogo, virou um maçarico, queimando toda minha cozinha, a família foi salva pelos bombeiros. Assim, com tantas emoções pirotécnicas (prefiro falar assim...) era para ter me tornado uma pessoa traumatizada por causa do fogo. O calor das chamas e o barulho do fogo, isso tudo me impressiona.





Ontem, passeando pelo Sul de Minas, ia de uma cidade à outra provando as águas medicinais que são abundantes em São Lourenço, Caxambu e Lambari. Quase chegando ao trevo que interliga a rodovia Fernão Dias às bonitas cidades de Caxambu e São Lourenço, o fogo pediu passagem, vi árvores serem devoradas em minutos.

Com o carro parado à beira da estrada, desci, descalça, com a máquina em punho fui fotografando a devastação causada pelas línguas amarelo/alaranjadas que tornavam o verde em preto/pretinho... com direito à fumaça.







Foi quando notei uma casa no meio das labaredas... (ou melhor... dentro das labaredas) não tive medo!... fui até lá. Fotografei. O calor era insuportável, o barulho era incrível, o estalar da madeira devorada pelas chamas é como uma sinfonia de Tchaikovsky, fiquei, ali, no meio das labaredas, sem me importar, sem medo. Alguns carros pararam na pista para ver o que eu fazia.

 




Fiquei até o último minuto, até a casa ser consumida e cair diante dos meus olhos.

Voltei correndo ao carro, foi quando senti o perigo. Veio um senhor e me perguntou de onde eu era... como se eu não fosse desse mundo. Conversamos rapidamente dissemos adeus e saí em direção ao povoado ali perto.

Sei que é tempo de queimadas. Isso é uma tradição secular, vinda da Europa. Estudei esse estranho costume, tão enraizado na região da Mantiqueira. Só não consigo entender como, em época de vasta tecnologia, ainda existe, em algumas pessoas, um grito “neandertal” que as impele a colocar fogo nessas regiões onde a seca está predominando por causa da estiagem. Só queria saber dançar sob o som de tambores a dança da chuva... assim, minha raiz mais tribal faria presença! 

Fui conversar com os moradores locais, alguns acham isso válido, outros querem mesmo botar fogo: “isso é bom para a terra” – me informaram. Poucos sabem do prejuízo causado à terra, às plantas, às pessoas e à camada de ozônio. Costumes... sim, costumes. Punições?! De todas as formas. Existe até multa, isso doeria no bolso, mas, a polícia tem de pegar o piromaníaco em flagrante – isso é raro!

Rita Elisa Seda

Cronista, poeta, biógrafa, fotógrafa e jornalista.

11 comentários:

Flora Maria disse...

Li, absorvendo cada linha, sentindo toda a revolta e dor que a Mãe Terra deve sentir, ao ser assim agredida.

Como você, não entende nem aceito que "tradições" ponham em risco a vida e a saúde de pessoas, plantas e bens matériais.

Belas e tristes fotos...

Beijo

Ricardo Silva disse...

Muito Lindo!! Nos põe a refletir.... até quando isso vai continuar...

Silvinh@ disse...

Rita Elisa...
A prática de queimadas rurais tem causado muitos acidentes.
Infelizmente!!!
Aqui na nossa região está terrível, também. Mesmo sendo proibida a prática, alguns produtores insistem em fazer queimadas em suas propriedades, o que agrava a situação. Embora existam leis que prevêem punições para quem for pego ateando fogo, muitos ainda não têm consciência, das conseqüências, dos prejuízos, que as queimadas trazem tanto pra natureza, como para a saúde do próprio homem!
Além de problemas para o meio ambiente, as queimadas registradas no período da seca podem provocar problemas para as pessoas que moram nas regiões atingidas.
Com as previsões climáticas, com aumento da temperatura e queda na umidade relativa do ar, fatores que contribuem para o surgimento e propagação do fogo; todo cuidado é pouco...
A seca na verdade, é o resultado da ação do próprio homem na natureza; pois há muitos anos, este tem utilizado de modo irregular; causando assim desequilíbrios...
Me cortou o coração, ver há dias atrás, a Ilha do Bananal, a maior ilha fluvial do mundo, sendo destruída pelo fogo... Atingindo quase um milhão de hectares. Com a queima da mata, os seres que lá habitam: os animais, as aves, reservas indígenas, as plantas, enfim...
Vidas sendo destruídas em questão de segundos,minutos...
Quanta imprudência! Quanta ganância, meu Deus!!!
Ahhhhhhhhh...seu blog estava “estranho” sem novas postagens...rsrsrsrsrsrs
Estava com saudades!!!
Beijos, forte e carinhoso abraço!!!

Silvinha

Rita Elisa Seda disse...

Flora querida, eu estou triste por causa da devastação que presenciei não só no Sul de Minas, mas no estado de São Paulo e Goiás. Você conhece bem a região que me referi nesse texto, lute para que ela continue tendo as áreas verdes que são maravilhosas. Vou colocar no blog os encantos desse lugar. Beijos, felicidades e a paz!

Rita Elisa Seda disse...

Querido Ricardo... até quando isso vai continuar?!! é uma pergunta que há décadas algumas pessoas fazem, ou melhor, muitas pessoas fazem, mas enquanto houver uma só pessoa que possa jogar um palito de fósforo aceso, ou bituca de cigarro em região onde o pasto e árvores estão secas, pronto... nada vale! Hoje, ao passar pelo local do incêndio os bombeiros estavam fazendo relatório e alertando os moradores.
Felicidades e a paz!

Rita Elisa Seda disse...

Silvinha querida amiga, você tem toda razão!... há vários fatores inerentes às queimadas. Alguns podemos controlar, outros não! Falar, publicar textos, tudo isso vale, mas é pouco. Ontem li em uma exposição ambiental, em São Lourenço uma frase que me marcou: PALAVRAS NÂO RECICLAM LIXO! - uma verdade vinda da sapiência de uma criança. AS palavras podem alertar, mas só lidas ou só escritas, não valem nada... como no caso do alerta às queimadas. Beijos, felicidades e a paz!

Malu Machado disse...

Olá Rita,

Descobri o seu cantinho por aqui através de outro blog. Gostei. Sua jornada com o fogo é impressionante. Que sorte a sua ! Ou será que o fogo, apesar das travessuras, é seu amigo?

O fogo produz um fascínio hipnotizante. Mas as queimadas...

Quando vejo queimadas, me lembro de como a humanidade é superficial e imediatista em seus desejos.

Parabéns pelo blog e, se quiser, faça uma visitinha ao meu espaço.

Rita Elisa Seda disse...

Oi Malu, seja benvinda! Eu não sei dizer se essas tais 'travessuras' do fogo para comigo são assim, digamos, amigas... só posso dizer que estou inteira e sem marcas no corpo e na alma. Isso já é um bom sinal, né?! Vou lá no seu blog dar uma olhadinha, sim. Tudo de bom para você, felicidades e a paz!

Alberto S. disse...

Relato com sentimentos, profundo e bem escrito. Muito Obrigado!
Tomei a liberdade de incluí-lo na seção "Pessoais" de
http://sigma.cptec.inpe.br/queimadas/links.html

Rita Elisa Seda disse...

Ok, Alberto, fique à vontade. Já passei por lá e olhei o link, aproveitei e li outros artigos relevantes à esta questão. Estou em pleno carnaval... canto o dia inteiro: Tomara que chova, três dias sem parar!
Beijos, felicidades e a paz!

Inajá Martins de Almeida disse...

Querida amiga Rita Elisa
Estou a navegar pelo seu blog, explorando textos ainda não visitados, quando estanco; o coração saltita, a emoção toma conta. Há pouco vira cena similar também registrada em fotos em nosso blog são carlosemimagens, cf link http://saocarlosemimagens.blogspot.com/2010/07/flores-amarelas-silvestres-em-sao.html
Meu marido e eu saímos diariamente a fotografar cenas interessantes da cidade (paisagens, prédios, animais, enfim o que nos toca). Bem próximo a nossa casa, há muitas paisagens bucólicas - o encontro de vários córregos, muitas árvores, flores, que poderiam ser muito bem cuidadas, tanto pelo poder público quanto pelos munícipes, entretanto, o descaso por parte de ambos é muito grande. Infelizmente a insensibilidade do homem chegou a tal ponto de não permitir que ele perceba o quanto a natureza nos dá em exuberância e beleza. Sei bem o que você sentiu nesse momento; também passei por isso, quando passeava por entre as flores amarelas viçosas e radiantes, absorvendo seu perfume de mel, apreciando as abelhas a sorverem o nectar, e pouco depois uma devastação insuportável. Um cheio de morte no ar. Cinzas. Parei. Chorei. Clamei. Atônita não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Minha cachorra Lilica buscava o verde e se perdia naquele cenário que ela estava habituada a presenciar todos os dias. Entrei em contato com o secretário do meio ambiente, mas nem resposta obtive. As fotos estão lá para quem quiser ver. Parabéns pela sua coragem indômita. Estamos alinhavando nosso futuro com o enredo dos nossos retalhos gloriosos, registrando nossas memórias. Semeando por todos os cantos. Não tenho dúvidas que haverá sementes que germinarão em solo fértil. Um grande abraço e até mais / Inajá