PALAVRAS DE SEDA

Escrever é um ato solitário, é colocar-se em palavras. Palavras são como folhas de plátano soltas ao vento... em direção aos novos horizontes, voando irreverentes sem cordas para serem puxadas e sem lugar determinado para pousarem... sempre a favor do vento.
Assim é o ato da escrita, deixar fluir palavras que, voando devagar, ao caírem, adubarão terras distantes.

















































































































domingo, 30 de janeiro de 2011

CULTURA SUL MINEIRA

O Filipe do café consiste na formação de um grão de café colado um no outro, podem ser dois, três ou mais. Quando encontrados, nas lavouras de café, vale uma prenda, um presente simples mas de significado para quem o achou, varia desde uma roupa, um livro e até mesmo um beijo. Geralmente esse achado fica escondido dos olhares e saberes da família. Só assim, tem a magia de ser passado para outra pessoa sem que ela espere e, sem que os outros se atentem ao acontecimento. Quem tem um Filipe o esconde por vários dias até que encontre a maneira ideal de passá-lo. O encantamento da brincadeira é saber que algum grão de Filipe está passando de mão em mão, só não se sabe pra quem, com quem, quando e aonde. Ás vezes ele é passado dentro de um pão, debaixo do travesseiro, ou até mesmo as pessoas ao se cumprimentarem com as mãos. O que recebe fica quieto, porque senão será ignorado em brincadeiras, conversas e encontros familiares, pelo simples fato de ter a condição de passar um Filipe. Quando a pessoa consegue sua façanha, geralmente bem planejada, fala em sussurro para o escolhido: “paga meu Filipe”.
Sou da estirpe de italianos e de portugueses. Meus avós italianos vieram da Sardenha. Meu avô Deodato Sêda e minha avó Josepha Patta Seda (Sá Pepa), quando chegaram ao Brasil se alojaram no Sul de Minas. Vô Deodato trabalhou nas fazendas cafeeiras, principalmente em Santa Rita do Sapucaí, cidade berço das Ritas da família: minha mãe e eu! Convivi, na infância e uma parte da juventude, com as plantações de café. Gosto de colher um grão de café vermelhinho, colocá-lo na boca, morder de leve, só para sair um pouco do sumo e deixá-lo rolando de um lado para o outro, até que a casca saia, acentuando o sabor, depois ficam apenas os caroçinhos na minha boca. Amo ver o café ser revirado no terreiro. Para quem não sabe, com um rodo bem grande, os grãos são mexidos para a secagem. Fazem isso várias vezes ao dia. Um detalhe... o café tem de ser puxado no sentido da sombra do trabalhador. Só assim secará mais rápido. Sabedoria dos antigos. Era sempre nesse ato de “rodar” os grãos que eu procurava e, sempre achava, meu grão de Filipe. A única coisa que não dava certo, no tempo lúdico em que passava férias na fazenda de amigos e parentes, era a questão do silêncio. Eu não conseguia ficar quieta, entregava o grão de Filipe aos berros: “paga meu Filipe”. Um desastre.
Recebi hoje, da Anna Luisa de Castro, um email e comentário neste blog, a respeito da crônia Grão de Filipe:

“Seda,
Parabéns pela crônica, além de linda me identifiquei com cada contexto. Por falar em contextos, cheguei até seu texto em busca da expressão "grão de Filipe". Sou mineira criada na fazenda cafeeira e sempre ouvi tal expressão, além de me divertir com suas lendas...rsss...

Hoje, já em SP, deparei com duas bananas geminadas e rapidamente voltei à minha infância...quando percebi já estava inundada de nostalgia...
Entretanto, uma dúvida ficou: "Por que grãos de Filipe?"

Faço questão de responder à Anna Luisa e deixar esse registro aqui para os que ainda não sabem da procedência do termo: grão de Filipe.
Em primeiro lugar – é Filipe mesmo!... e não.. Felipe.

Dentro da historicidade primária de grão de Filipe, a palavra Filipe é uma referência às ilhas Filipinas, Ásia. Nela existem algumas formações geológicas únicas: Chocolate Hills, monumentos naturais de tonalidade marrom que ficam na ilha Bohol. São montanhas que possuem quase o mesmo tamanho, perto uma nas outras, compondo uma vasta área. Foi o navegador português Fernão de Magalhães, a serviço dos Reis da Espanha, quem no século XVI, descobriu esse arquipélago Asiático. Deixou os europeus cientes dessa descoberta, e dentre as novidades havia as singulares formações na ilha Bohol, aquelas pequenas montanhas juntinhas, quase do mesmo tamanho. Novidade que trouxeram para o Brasil, na mesma época.

No período do Brasil Colônia o plantio de algodão tinha grande valor, a cultura do algodoeiro era explorada comercialmente. Quando, por causa do ataque das lagartas rosadas, as sementes de algodão se apresentavam grudadas uma às outras, eram chamadas de Filipina. Uma alusão às montanhas da ilha Bohol. Isso mesmo antes do período cafeeiro no Brasil. Com o passar dos anos a denominação evolui para Filipe.

Foi Francisco de Mello Palheta, oficial português, que em 1727, retornando da Guiana Francesa, quem trouxe as primeiras mudas de café para o Brasil. Presente que recebeu da esposa do governador de Caiena, a excelentíssima Madame D´Orvilliers. Essas primeiras mudas plantadas no Pará floresceram sem dificuldade.

Meio século depois o consumo da bebida crescia extraordinariamente na Europa e nos Estados Unidos, exigindo aumento de produção. Por esse motivo, em 1782, o café começou a ser plantado em fazendas no Rio de Janeiro, pouco tempo depois dominando a paisagem fluminense. Assim começava uma nova etapa econômica brasileira. Já que estava esgotado o ciclo da mineração do ouro, outra riqueza surgiu, adentrando pelo vale do rio Paraíba e pelo Sul de Minas Gerais. A partir da década de 1880 a mancha verde dos cafezais passou a ser a principal paisagem nessa região. Na sua marcha foi criando cidades e fazendo fortunas. Ao terminar o século XIX, o Brasil controlava o mercado cafeeiro mundial.

Nas fazendas cafeeiras houve aculturação de valores ameríndios, africanos, portugueses, espanhóis e italianos. Dentre elas há essa brincadeira em questão: “paga meu Filipe”. No Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa – Ilustrado, da Editora GAMMA, 1971, que peguei emprestado de minha mãe (recado para mamãe... não vou devolver, não!... tem mais coisas nele do que no Google... é bom demais!) há essa referência a esta brincadeira: “Filipina - caroço duplo, os quais partilhados entre duas pessoas dão a que no primeiro encontro aludir ao fato o direito de reclamar um presente da outra”.

Costume até hoje mantido no Sul de Minas Gerais. Minha irmã, proprietária de uma fazenda cafeeira, entende de café como ela só, me presenteou o ano passado com um grão de Filipe triplo. Foi logo depois que escrevi a crônica Grão de Filipe, pura nostalgia. Letícia me passou o grão de Filipe. Eu agora tenho duas tarefas, a primeira - pagar o presente (isso mesmo... até hoje eu não entreguei o presente: uma imagem de Nossa Senhora do Café... ah! você não conhece essa a história?!... um dia eu conto), a segunda você sabe qual, não vou falar, deixo a imagem dela logo abaixo, quem for ganhador que passe.
                                                                              Foto: terreiro de secagem de café (essa sombra aí, bem comprida... sou eu!)











Beijos, felicidades e a paz!

Rita Elisa Seda
Cronista, poeta, biógrafa, fotógrafa e jornalista.

17 comentários:

. disse...

Rita Elisa,
Parabens. Você carrega um formidavel DNA para pesquisa histórica.
Adoro ler o que você escreve.
Beijos
Ivon

Rita Elisa Seda disse...

Meu lindinho... tenho no DNA esse bichinho danado que me faz pesquisar, procurar, ficar inquieta se não encontro, até me dar por satisfeita quando chego ao ponto inicial da questão. Desvendar a história é uma herança genética que herdei de meu pai, homem de grande capacidade que me ensinou a ter raízes, por isso só posso agradecer... obrigada viu, papai!

Noralia disse...

Rita, brinquei muito de "passa filipe" (ou paga filipe), na minha infância e juventude. Mas, aqui, a mesma brincadeira de descreveu, tem outro nome: PASSA ANEL. E tinha que ser paga uma prenda. Uma delícia. Amávamos brincar esse passa anel. Acredito que a origem do passa anel seja a mesma do passa filipe, sem a riqueza dos detalhes dados por você.
Amei ler seu texto histórico sobre o café. Excelente texto.
Abraços,
Norália - BH.MG

Rita Elisa Seda disse...

Norália, querida amiga escritora, essas são brincadeiras com o mesmo sentido, premiar o ganhador de uma maneira quase oculta. Lembro-me daqueles aneis que vinham atados em uma bala, o máximo. O bom era experimentar vários, com a bala presa, até encontrar um que coubesse no meu dedo. Só aí eu o comprava. Sempre fui magra demais e meus dedos finos, quase não encontrava um anel que ficasse perfeito em um dos meus dedos. Quando achava nem queria passar, pois o que viria, provavelmente não me serviria. Beijos, felicidades e a paz!

Noralia disse...

Ahahahahhhh... você me fez lembrar: comprei também muitas balas com anéis... dizia que eram para sorte, dependendo da cor da pedra...Confesso que não ligava muito para o anel...mais o prazer de ver se tinha ou não o anel naquela ou noutra bala...Se achava o anel na bala, ganhava o meu dia de sorte, com risos.
Já na brincadeira, se me davam um anel, uauuu... eu me condenava logo, não conseguia conter o riso.
Bons tempos. Bons tempos.

Norália

Rita Elisa Seda disse...

Bons tempos mesmo, hoje em dia tudo tem de ser artigo de luxo... ainda bem que tivemos essa infancia feliz!

Silvinh@ disse...

Excelente, Rita Elisa!
VOCÊ É O MÁXIMO!!!kkkkkkkkkk
Rita Elisa é cultura, é história, é lenda: TUDO DE BOM!!!
Adorei a brincadeira, eu não conhecia.
Ótimo para ensinar às crianças...
Paga meu Filipe...
Vou ensinar esta brincadeira aos meus alunos, na minha aula de históri: Café - apogeu e crise do Império, lá pelo 3º bimestre,mais ou menos.
Tenho certeza que eles vão adorar!
Obrigada Rita Elisa pelas informações serão muuuuuuuuuuuuito úteis.
Beijos, forte e carinhoso abraço!!!

Silvinha

Inajá Martins de Almeida disse...

Rita sempre essa caixinha de surpresa a que venho aludido contantemente.
Confesso não conhecer a brincadeira, tampouco o termo, o que me deixou feliz por esse aprendizado.
Gosto por demais dos mineiros. Tive uma amiga que me deixou grande saudade, inclusive muitos me confundiam dizendo que minhas características estavam mais para mineira do que para paulista, o que me deixava feliz também, pois amo igualmente os dois estados.
Falar em café muito me agrada, tanto pela história que o envolve, quanto o paladar e meu gosto particular - café une as pessoas ao redor da mesa, na sala de visitas, numa lanchonete, numa livraria... enfim.
Já me deparei com muitos grãos de café unidos, mas desconhecia esse significado e a brincadeira, o que me deixou um pouco triste por não desfrutar esses momentos com mais animação.
Muito bom mesmo.
Um beijo e até mais

Rita Elisa Seda disse...

Silvinha, essa brincadeira é mesmo ótima, a ensine mesmo para seus alunos, pois é através de pessoas como você que esses costumes se mantêm. Felicidades e a paz!

Rita Elisa Seda disse...

Injá, você tem toda razão... o café une as pessoas. Eu, como uma boa mineira, gosto de receber os amigos na cozinha, ao sabor de um cafezinho coado na hora. Não vivo sem café. Já tentei. Não conseguindo, apenas diminui a quantidade, tomava duas garrafas tamanho médio, agora tomo uma. Isso não me tira o sono, apenas acorda minhas ideias. Agora, querida Inajá, quando encontrar um Filipe, passe-o adiante, com direito à prenda. Beijos, felicidades e a paz!

José Antonio Braga Barros disse...

Rita, também brinquei de "passa Filipe", embora nunca tenha morado em uma fazenda de café. Como você sabe, aqui no sul de Minas o café teve uma grande produção que até foi motivo para Getúlio Vergas mandar cortar e queimar as plantações. Mas a brincadeira chegou até as nossas casas e nada mais gostodo de brincar de "passa Filipe" com as primas, depois essa brinadeira teve uma variante que foi o passa anel, mas prefiro a primeira versão. Parabéns! José Antonio Braga Barros. Em tempo: Hoje dois de fevereiro nasceu o meu neto. Pode contar para todo mundo.

norália disse...

Prezado José Antônio.

A brincadeira Passa anel é a mesma, só com nome diferente. Eu, na infância, teria amado Passa Filipe tanto quanto amei o Passa Anel. Hoje, com o saber transmitido por nossa querida amiga Rita Elisa, e com tantos dados complementares, lhe digo que prefiro também o nome passa Filipe.
Sou do centro de Minas, longe das fazendas cafeeiras, mas mesmo assim, acredito que passa anel seja herança da origem dessa brincadeira. Já jovens crescidos, brincávamos, eu e meus primos e amigos, de passa anel.
Confesso que minhas mãos estão coçando para fazer hoje, uma reunião de adultos e brincar de passa filipe. Que tal? aceita um convite? Vamos, Rita, brincar de passa anel?
Abraços,
Norália

Rita Elisa Seda disse...

Braga, querido poeta, PARABÉNS!... ser avô é bom demais, deve ser parecido com ser avó, e posso lhe dizer que ser avó é MARAVILHOSO. Escreva um poema de boas vindas ao seu neto, afinal, você é ótimo poeta. Desejo ao seu neto tudo de bom que existe na vida: saúde, amor, alegria, paz, prosperidade e muitooooo carinho. Beijos, felicidades e a paz!

Rita Elisa Seda disse...

Norália, eis uma questão a ser desvendada: será o Passa Anel uma brincadeira com herança do Paga meu Filipe? Vamos procurar essa resposta? Quem souber avisa a outra. Amo desvendar mistérios...
Beijos, felicidades e a paz!

Fanzine Episódio Cultural disse...

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Carlos Henrique Zinato disse...

Minha mãe é nordestina e sempre falou isso. Nunca entendi direito. Hoje, ao fritar um ovo com duas gemas me perguntei o porquê do Filipe. Seu texto me ajudou muito! Obrigado \o/

Rita Elisa Seda disse...

Carlos Henrique, ontem eu peguei uma banana Filipe para comer. Dizem que dá sorte. Fico feliz que tenha lhe ajudado.