PALAVRAS DE SEDA

Escrever é um ato solitário, é colocar-se em palavras. Palavras são como folhas de plátano soltas ao vento... em direção aos novos horizontes, voando irreverentes sem cordas para serem puxadas e sem lugar determinado para pousarem... sempre a favor do vento.
Assim é o ato da escrita, deixar fluir palavras que, voando devagar, ao caírem, adubarão terras distantes.

















































































































segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

SOLEIRA PARA UM IMPÉRIO NOVO


A poeta Alzira Maria Ribeiro é mineira, residente em Belo Horizonte, atualmente entrou em contato comigo porque leu um de meus livros, atamos amizade em ponto de linha mineira, com alinhavos de palavras. Foi nesse estreitamento de afeição que ela me enviou o livro SOLEIRA PARA UM IMPÉRIO NOVO, de sua autoria. Como prefaciou Jota Dangelo: “artesã de palavras, Alzira Maria Ribeiro, constrói no tear da poesia uma colcha de sons. Sonha”.
Foi nessa trama feita de novelo onírico guardados em gavetas e baús que encontrei a primazia lírica da poesia mineira. Dentro de uma mística onde o coser é feito com linha fina e dourada que unem palavras, atada em agulha de tântalo, que abre caminho, furando o cotidiano para as lembranças que celebram pontos e vírgulas, desembramando alegrias e tristezas de uma tecelã que urde uma colcha para lhe aquecer no inverno de seus dias.
Alinhavo aqui alguns entremeios da poesia de Alzira, você que sempre adentra a esse meu espaço, que compartilha comigo momentos sublimes via Internet, certamente vai aplaudir essa mostra de SOLEIRA PARA UM IMPÉRIO NOVO.



Roca de fiar (acervo particular de Rita Elisa Seda)


“Com lentidão, a toalha de inocência
cobre a mesa da celebração”.


“Fiar entre cobertas, esperar o nada
no aconchego dos restos”.

“O corpo aprofunda rugas
com algodão de favos maduros”.


“Possibilidade nova
no velho e remendado chão”.

“Saber o princípio de tudo e do final
também é missão do texto”.


“Quando palavras unirem beleza e perfeição
a poesia estará pronta como nuvens no céu”.

“Possa o poeta alimentar palavras
descortinadas do que precisa ser”.


“ Quando secar a fonte deste ofício,
palavras caminharão sem rumo
como nuvens no esvaziamento do céu”.

“Palavras – o que se molda
para dizer o nada em perfeição”.


“De alturas, eco de andanças
desenterradas da iniciação tardia
cobre com véu de tolerância
o deixado que entorpece a vida,
fiandeira do mistério”.

“Se não fizer alguém o que devia,
preciso reter a correnteza,
cercar águas na bacia do garimpo
de pedras lançadas sem direção”.


“Destino. Faço dele o que quero:
em porções quase nada,
em sonhos quase tudo”.

“Acorda dentro da noite
a inconsistência do fio”.


“São sentimentos imperfeitos
as metades partidas do meu verso”.

“O poema está quase pronto agora.
Basta fazer adormecer quem vigia,
o milagre se faz”.


“A noite alumiada é quase dia.
Guia peregrino de trilhos,
abismos lançados no caminho”.

“Destino é gaveta grande
de onde se tira o necessário”.


“Imagens incrustadas no silêncio,
vivências boas e tristes, coisas proibidas,
algumas guardo no fundo do armário,
entre meias de lã usadas de inverno”.

“Nos arredores de meu mundo
nasce uma planta trepadeira,
enraizada em lodo e adobe”.

“Apanhar palavras é missão.
Reunir na beleza a construção
do verso de uma laçada só.

"Estar à sombra do encantamento
sob o gotejamento do sereno da noite”.


“Entrega-se à paciente aprendizagem
agulha que navega em pano rude”.

“Estou apaixonada por tão pouco:
santificado o nome de quem me fez assim”.


“Coisas retidas e não compartilhadas
desenham entre palavras contorcidas
o silêncio de uma seda nova”.

“Na supremacia de quem engole o fado,
a chuva cai sobre meus pesares
como nuvem de gafanhotos no deserto”.




Eu não disse que é lindo?!
A editora é Manuscritos, a cidade é Belo Horizonte, o ano é 2009.
Boa leitura... e não se esqueça de uma xícara de café,  três pães de queijo e uma colcha de retalhos para agasalhar o corpo, enquanto a leitura aquece sua alma.
Felicidades e a paz!

Rita Elisa Seda
Cronista, poeta, biógrafa, fotógrafa e jornalista.

9 comentários:

Inajá Martins de Almeida disse...

Rita minha amiga
Como é gratificante as linhas. Como elas tem o encantamento de encontrar palavras que se irmanam com tanta harmonia.
Aos poucos vou me aproximando de mulheres artesãs poetas e escritoras que de seus retalhos, de suas lembranças, de suas inspirações e aspirações, tecem palavras, quantas vezes declinadas com a mesma destreza que manejam as agulhas.
Há um tempo pesquisando através da Internet, encontrei um texto magnífico da profª Lélia Almeida – “Cozinhar é igual a tecer que é igual a narrar: três habilidades recorrentes na literatura de autoria feminina”, quando nos diz que:
“Uma vez mais, bordar e narrar tem um caráter curativo, ordenador. Ao bordar, ao contar e reinventar um novo traçado para sua própria história, é possível reinventar um novo desenho... o tecer, corresponde a uma ética do cuidado feminino em que as mulheres, unem-se a outras redes de mulheres reafirmando cumplicidades e genealogias fundamentais para suas vidas e suas histórias”.
Essa minha curiosidade nasceu a partir do momento em que me vi a escrever versos, os quais fortemente traçavam minha experiência entre as lãs e as linhas – as lãs da família artesã e as linhas de meu pai historiador – quando dou início a uma série de versos que falam das tais lãs e linhas.
Espero um dia vê-los publicados também, porque como tão bem expõe Alzira:
“Apanhar palavras é missão. / Reunir na beleza a construção / do verso de uma laçada só” .

(continua)

Inajá Martins de Almeida disse...

Rita mais uma vez você me surpreende, com tuas postagens deliciosas e marcantes.
Verdadeiramente a poesia de Alzira é doce e singela e veio ao meu encontro neste amanhecer chuvoso na cidade de São Carlos quando então você nos compartilha teu presente e posso me permitir assim:
“Estar à sombra do encantamento / sob o gotejamento do sereno da noite...”. Coisas retidas ... desenham entre palavras contorcidas / o silencia de uma SEDA nova”.
Senti tua falta, nesses dias ausente mas a espera compensou sobremaneira, porque como eu mesma escrevi:
“Como é bom falar de lã / quanto mais na linha / encontrar a lã / O texto da lã, na linha! / O texto da linha, na lã...”
E eu encontrei você e tantos outros nesta tua casa, a beira de um fogão à lenha, saboreando café e pão de queijo bem quentinho, fiando uma boa prosa.
Quem sabe um dia, em pessoa, possa lhe fazer presente um livro meu. Hoje, contudo, meus textos e poemas, em rascunho, estou amealhar.
Beijos e obrigada por mais essa joia preciosa com que você nos presenteia. Parabéns a Alzira. Riquíssimos versos.

Rita Elisa Seda disse...

Inajá, querida amiga, viajei com meus netos, foi bom demais. Agora, estou de volta à telinha do computador, tendo a alegria de conversar com amigas como você, pelo sentimento mútuo que nos une. Quero, e muito, ler seu livro. Pela sua bagagem literária há um tesouro em você que precisa ser compartilhado, há uma luz que precisa ser colocada em cima da mesa e, com isso, iluminar os corações humanos. Creio que este ano irei em lançamento de livro seu, um anjo passou por aqui e me disse isso, em um sopro, nos meus ouvidos. Beijos, felicidades e a paz!

Inajá Martins de Almeida disse...

Querida amiga Rita
Tenho relutado muito por lançar meus textos.
Alguns estão espalhados pela internet, mas queria mesmo era vê-los no papel, fazer presente a amigos em forma de livros.
Aliás, tenho um sonho de ver seu nome prefaciando, fazendo uma introdução ou algo semelhante nesse meu primeiro lançamento, o qual penso sair este ano - temos a nosso favor 355 dias.
Posso até estar encaminhando algum material que pretendo editar para você poder trabalhar, por carta ou por e-mail, basta apenas saber seu endereço.
Meu e-mail inaja.ima@gmail.com
e
Sou grata pelas palavras amigas e carinhosas, assim como sou grata a Deus pelo nosso encontro maravilhoso, quando posso manter valioso contato.
Ontem também dei um passeio com minha neta - Rafaela - de dois anos e meio.
Há fotos no blog http://rafaela-maria.blogspot.com/
Abraços e muita paz para você.

Noralia disse...

Cara Rita, outro presente especial que você nos dá.
Depois de ler texto tão belo, com imagens sutis e delicadas, quero conhecer esta belorizontina como eu. Certamente, como ela mesma diz:
"saber o princípio de tudo e do final também é missão do texto", a sua missão Rita, de nos apresentar essa autora, ficaria incompleta, se eu não lesse Soleira para um império novo.
Aliás, preciso urgentemente ler o livro citado e mais outros: os seus.
Abraços,
Norália

Rita Elisa Seda disse...

Querida Norália, sei que vai gostar de conhecer Alzira, pois você é ótima contista, sabe tecer histórias e passá-las para o papel, com certa magia que só você possui. Entre em contato com a Alzira pelo email alzirabh@hotmail.com que certamente ela ficará encantada com sua amizade. Isso é a vida... unir em palavras duas escritoras que moram na mesma cidade. Felicidades e a paz!

Noralia disse...

Ok, Rita. Vou correndo entrar em contato com ela. Obrigada por me mandar o endereço.
Sim, eu escrevo, mas também sou uma artesã: bordo, faço patch e cerâmica. Ou melhor, fazia. O tema que ela enfocou, me toca e muito. Ah... o tecer...vivo tecendo fios de vida... ora tortuosos, ora resplandescentes.
Vou mandar para você duas fotos em mosaicos para que conheça um pouco do que faço.

Norália

Lúcia Harumi disse...

Oi, Rita!
Você é, antes de tudo, uma pessoa da melhor qualidade. O que vem depois é consequência. Você, enquanto alguém de múltiplos talentos, é generosa ao reconhecer e valorizar o talento de outras pessoas. Essa, é a Rita Elisa que tem a minha admiração e meu carinho de amiga. Bjs

Rita Elisa Seda disse...

Querida Lúcia, todas nós temos talentos, ninguém é melhor do que ninguém neste mundo, aprendi isso e aprendo com vocês, minhas amigas, que a vida só vale quando estamos rodeadas de afetuosas conversas, como é com você e todas que aqui deixam seus recados. Me mande um haikai. Você é ótima! Felicidades e a paz!