PALAVRAS DE SEDA

Escrever é um ato solitário, é colocar-se em palavras. Palavras são como folhas de plátano soltas ao vento... em direção aos novos horizontes, voando irreverentes sem cordas para serem puxadas e sem lugar determinado para pousarem... sempre a favor do vento.
Assim é o ato da escrita, deixar fluir palavras que, voando devagar, ao caírem, adubarão terras distantes.

















































































































domingo, 15 de maio de 2011

Por quem os sinos dobram?!

Nasci em uma cidade do Sul de Minas, a casa de meus pais é ponto central de minhas memórias, a sinestesia delas compreende os cinco sentidos: visão, audição, paladar, tato e olfato. Foi através da audição que eu interagi com minha forma poética de sentir o universo. Na realidade, foi com a ajuda dos sinos. A casa era... posso dizer que é... ponto estratégico entre duas importantes igrejas locais: a Matriz (hoje Catedral Santa Rita de Cássia) e a São Benedito (capela).


Igreja Matriz da cidade de Santa Rita do Sapucaí

Sabia a hora da consagração na Missa por causa do bimbalhar festivo do sino da Matriz, igreja que me traz ótimas recordações, ainda mais no mês de maio, época em que eu participava da Coroação de Nossa Senhora e, quando terminava a coroação, nós, anjinhos, cobríamos nossa Mãe Rainha com uma chuva de pétalas de rosas, os sinos soavam festivos, meu coração parecia explodir, às vezes ele batia mais alto que os sinos do campanário.

Sino Igreja São Francisco. Foto: Rita Elisa Seda

Da capela de São Benedito minhas lembranças são duas, bem distintas: seis horas da tarde, o sino anunciava a hora do Ângelus e logo em seguida, em alto e bom som, vinha a música Ave Maria. Eu sempre ia até a porta da cozinha, me sentava em um dos degraus de uma pequena escada que dava acesso ao terreiro, e ali ficava até terminar a música. Momentos de paixão.

O segundo momento distinto que me recordo, é o som fúnebre dos sinos anunciando que um enterro deixava a capela. Eu corria até a janela da frente e olhava em direção à capela, via o caixão sendo carregado por homens fortes, de terno preto e, o cortejo fúnebre, quieto, logo atrás. Por muitos anos fiz isso, olhei até a procissão dos mortos desaparecer pela rua da Vista Alegre, em direção ao cemitério. Até que, certo dia, minha vó Pepa chegou até a janela e ficou um tempo comigo... olhávamos o cortejo, só que, antes do desaparecimento da ultima pessoa, minha avó me puxou pelo braço e disse: ‘Não presta olhar enterro desaparecer da vista, num presta mesmo!’. Sou do tempo em que o mais velho fala eu aceito sem contestar, nem quis e, para falar a verdade, nem quero saber se há ciência ou sapiência nisso, só sei que acatei e acato até hoje esse ensinamento de minha vó.

                           Igreja da Boa Morte - Sino da Boa Morte. Foto: Rita Elisa Seda

Foi só quando fui morar em Goiás que entendi o quanto eu era ignorante no quesito linguagem dos sinos. Lembro-me bem que logo nos primeiros dias, em conversas de amigos, logo que escutavam o soar de um sino, paravam de falar, aliás, até hoje, tudo fica quieto, até os pássaros se calam, só para decifrar o enigma do sino. Sim... enigma para mim, que ouvia as conclusões sem entender como decifravam tudo aquilo.

Os comentários me deixavam se entender: - morreu um homem... será que é o Fio?... ele tava tão doente... - num é... põe tento... o defunto é viúvo, o Fio não é casado... Essa aqui, então: - nossa morreu criança... - parece anjinho... - pior, é anjinho pagão!... Dessa maneira, escutando daqui e dali estas prosas, convivi com a sabedoria dos antigos que é passada até os dias atuais, através da oralidade de uma cultura vilaboense. Daí eu fiquei espantada com minha falta de entendimento a respeito dos ‘Entoados’.

Foi somente certo dia, com mais de um ano morando na cidade de Goiás, depois de registrar alguns bimbalhares cotidianos, como a chamada para a Santa Missa, que escutei um som diferenciado, vindo da igreja São Francisco, direcionei meus passos para o local, precisava ver quem tocava o sino. Subi a escadaria da igreja, parei em frente ao sino, onde o sineiro, tocava em compasso de luto. Ao terminar, desceu a escada de madeira de um campanário que fica do lado de fora da igreja. Eu olhava com presteza de quem precisava de respostas.

Igreja São Francisco, cidade de Goiás. Foto: Rita Elisa Seda

O sineiro era o Zé Tachinha, ou melhor, José Antônio de Moraes e Souza, homem de meia idade, que ali mesmo, diante do sino, me iniciou na arte de escutar e decifrar a mensagem de um sino. Eu ouvi tudo extasiada e, dali por diante, sempre que Zé Tachinha ia tocar o sino eu registrava em fotografias. Foram muitas, todas em película, tenho os negativos guardados.

Mas, tenho mais que isso guardado. Tenho registradas na alma as conversas com o Zé Tachinha a respeito da Irmandade dos Passos, a qual fui iniciada em 2004, as gargalhadas dele me contando sobre Cora Coralina porque trabalhou na Casa de Cora por muitos anos. Zé Tachinha e nossas conversas de amor a Goiás me renderam muitas crônicas publicadas e, poucas, ainda estão guardadas. Os melhores foram os ensinamentos dele a respeito do bimbalhar dos sinos. Aprendi muito. Aprendi tanto que ao escutar o sino era capaz de chegar ‘quase’ ao mesmo entendimento que os vilaboenses têm do acontecimento.

Foi mesmo quando recebi o título de Cidadania Vilaboense que me reconheci uma vilaboense, pois minha alma era benfazeja de badalos festivos pela cultura dessa maravilhosa cidade. Por isso sempre digo que sou Vilaboense de Alma. O título que recebi está latente em minha alma. E... meus amigos da cidade de Goiás moram dentro de mim.

Por isso, eu digo que foi bom não ir a Goiás no mês passado, exatamente no dia 16, quando os Sinos dos Passos tocaram fúnebres pela morte do Zé Tachinha, não poderia agüentar isso... pois, esse Zé Tachinha é quem toca, em minha alma, o sino da amizade sincera que ressoa nas igrejas da cidade de Goiás.


Continue, Zé Tachinha, continue a tocar os sinos do campanário de meu coração, alimente minha alma de boas notícias e, me ensine que a música mais linda é a que deciframos com os amigos. Amigos verdadeiros, os que não negam ajuda, os que têm amor que toca na alma.

Rita Elisa Seda
Cronista, poeta, biógrafa, fotógrafa e pesquisadora.

As fotografias das Igrejas:  Boa Morte e São Francisco (GO) são parte integrantes da Exposição: Nos Reinos de Goiás ( GO -2005). A fotografia Sino, integra o acervo de fotografias da Exposição: Estruturas da Fé (SJC -1999).

9 comentários:

Silvinh@ disse...

Nossa, Ritelisa...
QUE LINDO TUDO ISSO!!!
QUANTA SENSIBILIDADE, AMIGA!!!Maravilhosas, suas memórias!!!
A cada dia que convivo com você, seja via email, blog ou mesmo telefone, vejo e sinto uma Ritelisa diferente.
Sua alma linda demais; pura, límpida, clara...MUITO SENSÍVEL!!!
Cidade pequena tem destas coisas...retratam o "belo" nas pequenas coisas, na simplicidade... Num simples repicar de um sino.
AMO MUITO TUDO ISSO!!!
Ritelisa sábias sua palavras, AMIGA:"A MÚSICA MAIS LINDA É A QUE DECIFRAMOS COM OS AMIGOS", isso tem aprendido e muito com você!!!Principalmente o que é ser verdadeiramente amiga...
Tenho decifrado belíssimas músicas com você, e como!!!

Obrigada por estar presente em minha vida, como amiga; por ser música que tem tocado minha alma com tamanha maestria.

Beijos, forte e carinhoso abraço!!!

Sua sempre amiga-irmã,

Silvinha

Rita Elisa Seda disse...

Viu, querida amiga?! O Blog voltou!... felicidade!
Eu aprendo com você e com todas as amigas que respeitam a música que há em cada uma de nós.
Beijos, felicidades e a paz!

Fernando Antonio Pereira disse...

Olá Rita!
Voltei e apreciei esse texto, que me fez voltar a infância.
Abraços de Luz.

Rita Elisa Seda disse...

Obrigada Fernando, pelos abraços de Luz, essa Luz lúdica da infância, nunca perdida... sempre encontrada! Felicidades e a paz!

norália disse...

Sinos sinos e mais sinos e os seus badalos calam fundo que tudo fica em silêncio... Zé Tachinha calou fundo na sua alma e na minha também... lindo texto. Comovente.
Abraços,
Norália

Rita Elisa Seda disse...

A magia de decifrar a mensagem do sino é saber quem é o sineiro. Zé Tachinha vive, em cada ensinamento que deixou, em cada sino que magistralmente entoou. Isso, querida Norália, é o registro de uma vida. Felicidades e a paz!

Aline Negosseki disse...

Rita,
Existe um oceano, que é a nossa alma, e em suas funduras, guardam-se tesouros intocáveis, ninguém pode roubá-los.
É nossa cultura, toda construída de memórias. Ao longo da vida escolhemos o que nos faz sentido, e o que sobra desaparece nos abismos do tempo.

Mas de tudo, que mais importa que o afeto que damos e recebemos?
Sei bem, Rita, o que é ter nos baús da memória um Ze Tachinha, uma Gláucia (como estará minha madrinha do coração?)... e tanto mais. E como vc, eu concordo, ah, eu concordo, é melhor, certas coisas nem ouvir ou ver.

Embora nunca tenha sido católica, mesmo tendo tentado,certa época, os sinos de seus templos sempre embalaram minhas horas. Primeiro: paróquia do Espírito Santo, depois São Dimas, e hoje, a que embalou meus antepassados, a da Matriz de São José dos Pinhais.
Admiro a fluência no entender desse idioma, enquanto pra mim seu bater só siguinifique que as horas passem, e que algo está para acontecer, bem ali onde minha avó se casou com Davi, onde minha tia-avó sempre solteira, bem casada com São José, tanto trabalhou.

Afinal, quando se tem sensibilidade, que ficou tão na superfície do lindo texto, não existe fronteira nenhuma que possa impedir a aproximação de duas vidas: nós e os sinos, e as coisas de Minas.
=)
Ontem eu li O Prato Azul Pombinho, e aquela nota, que dá vontade de chorar, toda vez.
Lembrei de Goiânia, Anápolis... e dos caminhos que me levavam a Brasília, com seus doces e compotas, nomes de mistério: Luziânia, Abadiânia... e saudade do que já não pode ser.

um beijo
Aline

Rita Elisa Seda disse...

Aline, querida amiga, sou muito visual, se visse o Zè Tachinha morto eu mataria esse Zé Sineiro que tanto badala mensagens em meu coração. Reinaria o silêncio.
O Prato Azul Pombinho é a mais perfeita história de amor... e a mais triste história de um castigo. Às vezes temos nossos pratos despedaçados no chão do nosso cotidiano e, como castigo carregamos alguns cacos como adornos, mesmo que não sejamos os culpados pelo desastre. Uma analogia à vida que nos é imposta sem o nosso consentimento. E que passa, como o castigo do caco, ou que nos leva à morte... como no caso de Jesuina.
Goiás é um estado de alma, Goiás me ensinou em seis anos o que eu não tinha aprendido em 40 anos. Como você mesma disse acima... nossa alma é um oceano.
Felicidades e a paz!

Coordenadora Renata disse...

Que pureza é ouvir os sinos tocarem! Este som está também na minha memória. Ouço em casa o sino da Matriz e no Quilombo, o som é divino!
E que gostoso é cultivar a cada dia nossa amizade!