PALAVRAS DE SEDA

Escrever é um ato solitário, é colocar-se em palavras. Palavras são como folhas de plátano soltas ao vento... em direção aos novos horizontes, voando irreverentes sem cordas para serem puxadas e sem lugar determinado para pousarem... sempre a favor do vento.
Assim é o ato da escrita, deixar fluir palavras que, voando devagar, ao caírem, adubarão terras distantes.

















































































































terça-feira, 12 de julho de 2011

FESTAS JUNINAS

No mês de junho festejamos três santos gloriosos: Santo Antônio (13), São João Batista (24) e São Pedro (29). Eles têm particularidades diferenciadas em vivências sofridas, as quais são gloriosas pelo caráter de quem acredita no Amor. Aliás, o Amor é o elo que une estes três santos juninos. 





 Santo Antônio vivia em harmonia com a natureza, seus sermões eram verdadeiras injeções de ânimo aos ouvintes, até os peixes apareciam sobre as águas fazendo presença, só para escutar palavras de Amor.
São João Batista foi o precursor do Amor, quando ele nasceu Santa Isabel acendeu uma fogueira para anunciar sua chegada. 
São Pedro, pescador, rude e forte como uma pedra, é sinal antagônico entre a bravura e o medo;  falou em fidelidade ao Amor, mas, também, negou três vezes essa afirmação.

Dentro deste contexto de festas juninas podemos pontuar alguns ícones que perduram e que precisamos dar continuidade, como: a quadrilha... que é a lembrança de um casamento na roça, pois Santo Antônio é o santo casamenteiro, dizem que os casais de namorados que escutavam, juntos, seus sermões, logo se casavam. Também na tal festança dos arraiais juninos  existe a pescaria, sim, a pescaria de Santo Antônio significa os peixes que ficavam até mesmo com as guelras fora d’água, somente para escutarem os sermões do santo.  
No caso de São João Batista, até hoje em muitas cidades do interior deste vasto Brasil, os devotos soltam rojões, foguetes que anunciam o nascimento de uma nova etapa, de uma nova vida, de uma alegria, do precursor. Essa tradição é tão forte que ao nascimento de um novo herdeiro o pai solta pelo menos um foguete anunciando a vinda do novo Amor. 
A questão da fogueira nas festas juninas tem a lembrança da Santa Isabel chamando sua prima 'Maria' para ajudá-la durante o resguardo, desta forma na casa onde se acende uma fogueira em dia de São João é o prenúncio da vinda de Nossa Senhora para, durante 40 dias, auxiliar em tudo que precisam. Uma tradição milenar.
Dia de São Pedro é comemorado em noite fria, mais fria do que a do solstício de inverno que no Brasil ocorre sempre por volta de 21 de junho, sendo a noite mais longa do ano; mas a noite mais fria é  sempre marcada no dia de São Pedro, existe  até mesmo uma 'estória'  contada e recontada em arraiais brasileiros. É a  do Cochilo de São Pedro
Vou enxugar o texto para você conhecer esse folclore. 
O dono da Chave do Céu não só abre as portas para a passagem das boas pessoas, mas, também, controla o tempo na terra. São Pedro gosta desse ofício... o de controlador do tempo. Aliás, no Céu há muitas festas, até mesmo festa junina. Certa vez, São Pedro de braços dados com Santa Catarina apareceu  antecipadamente às festas juninas, digo antecipadamente porque ele só aparecia no seu dia de festança, porém veio em pleno dia de Santo Antônio. Dançou quadrilha, comeu pipoca, pulou as nuvens – não tem fogueira no Céu, por uma questão de segurança porque se cai uma fagulha sequer ... pode acreditar que será  chuva de fogo aqui na Terra! São Pedro tomou quentão sem saber que São Martinho estava sem óculos de leitura e não lendo a receita direito entornou uma garrafa intera de pinga na bebida! Os Santos não estão muito acostumados a beber quentão, mas, como era festa junina, tomaram um golinho, dois golinhos e assim por diante. Daí... logo, logo, cada santinho foi para sua nuvem para dormir tranquilo. Mesmo São Pedro que nunca dorme porque  tem de ficar de olho na temperatura e nas pessoas que entram no Céu, até mesmo ele dormiu igual uma pedra. Parecia castigo, foi só ele cochilar que... pimba!... o termostato quebrou e o simples friozinho, passou a ser frio, muito frio, frio demais,  as temperaturas foram caindo e caindo sem parar na Terra. O dia tornou-se nebuloso e gélido. As pessoas começaram a gritar:  ‘manda o sol, São Pedro!' Mas ele estava mesmo é no maior ronco, dormiu alguns dias e noites. Até que os anjos acordaram São Pedro que, em um susto, pulou da nuvem à porta do Céu para ver o que acontecia. Encontrou o termostato do Universo todo quebrado, consertou-o num segundo e fez o sol reaparecer. Dessa forma o frio foi se tornando mais ameno a cada dia, até que, dali alguns meses, havia desaparecido por completo, logo às vésperas da primavera. Ufe... ainda bem! Dessa forma o dia mais frio do ano passou a ser o dia 29 de junho, dia de São Pedro... e, dizem, que é o único dia em que o santo tem direito a uma garrafa de quentão e uma gostosa dorminhoca.


Mastros juninos, quaresmeira, nas imediações de São Luiz do Paraitinga, ano de 1958.

Gosto de ouvir ‘estórias’ juninas e gosto, também, de registrar alguns costumes inerentes a essa época. Um desses costumes fiquei conhecendo há muitos anos, ao ler o livro Poranduba Paulista, da coleção ‘Estudos de Folclore’, escrito por Alceu Maynard Araújo, de 1958. Nessa coletânea folclórica o que ainda mais me chama atenção é a respeito dos Mastros de junho que são da tradição  de São Luiz de Paraitinga e região. Nessa época é costume colocar três mastros em frente a entrada da casa. Atípica é a questão de o mastro ser um galho de capororoca (árvores de porte pequeno a médio, portando folhas  simples com margens inteiras em disposição alternas no caule), ou de quaresmeira (árvore pioneira nesta região). Em véspera de dia de Santo Antônio, a família se reúne diante do lugar onde serão fincados esses mastros, todos reunidos fazem respeitosamente uma reza. Enquanto, então, rezando, uma pessoa que fizera promessa cava um buraco de dois palmos de profundidade na frente da casa,  ao término da reza levantam o mastro/arvore enquanto cantam a Salve Rainha. Depois de bem fixado o mastro, amarram nele ovos, milho e feijão, sempre em quantidade de doze, representando cada mês do ano. ‘Dessa forma asseguram boa colheita e as galinhas produzirão, não haverá pestes’, como informou Maynard. Algumas pessoas também colocam laranjas, flores, cipós e algumas fitas. Sempre, na maioria, são guardadas as espigas de milho para serem semeadas no tempo das águas. Esta é a representação da festa da colheita que é tradição entre os roceiros enraizados na Serra do Mar, entre o Vale do Paraíba e o litoral Norte, entre Taubaté e Ubatuba, nas cidades de São Luiz do Paraitinga, Natividade da Serra e Redenção da Serra, adentrando pelo núcleo Santa Virgínia, passando pela Vargem Grande e chegando em Palmeiras. 



Mastros juninos, capororoca, Palmeiras, imediações de São Luiz do Paraitinga, 2011.

Foi no bairro  Palmeiras que tive o prazer de ver os três mastros de capororoca fincados na beira da estrada, em frente a uma residência. Perguntei aos antigos do local a respeito dessa tradição e foi o Sr. João Pereira da Silva, pai do Agnaldo, amigo do Valdinei, quem me explicou que atualmente os jovens não querem mais aprender e fazer uso deste costume, apenas uma família conserva a tradição no local. 'Antes eram pendurados milhos, feijão, laranjas, flores e algo mais nos mastros/arvores, agora, somente os galhos e olha lá!...'

Valdinei e Agnaldo segurando os mastros, 2011.

Ouvi o depoimento de alguns jovens que não se importam com a tradição porque acham que isso é perda de tempo, fiquei atenta aqueles que tentam manter esse costume, mesmo que sejam motivos de deboches para os outros. Também encontrei poucos que pretendem continuar a tradição.
Creio que o ano que vem haverá pelo menos mais uma casa onde, durante as festas juninas, três mastros de capororoca serão fincados, enfeitados com grãos, frutas e flores, abençoados com cantorias e rezas... a minha!

Rita Elisa Seda
Cronista, poeta, biógrafa, fotógrafa e pesquisadora.

7 comentários:

Silvinh@ disse...

Ritelisa....acho lindo demais o jeito que você descreve, retrata, resgata nossas origens, tradições, costumes, crenças...É muito real!!!
Nos faz reviver, sentir em nossos corações o grande valor de tudo isso, em nossa história!!! Este blog estava apagadinho, apagadinho, e VOCÊ, Ritelisa, com seu talento e sensibilidade, revitalizou-o!!! Parabéns, minha amiga-irmã!!! Que gostoso chegar aqui e nos agraciarmos, com seus escritos!!! Graaaaaaaaaaaaade Ritelisa!!! Deus a abençõe sempre, sempre!!!


Silvinha

Rita Elisa Seda disse...

Silvinha, conhecer os costumes do entorno onde moramos é nosso dever, só assim podemos criar identidade. Minha alegria foi encontrar pelo menos uma família que mantém viva essa tradição, agora, cabe a nós reavivá-la. Perder as tradições é perder o sentido da vida! Beijos, felicidades e a paz!

norália disse...

Rita, li e reli e gostei de seu artigo sobre os festejos juninos. Amo também essas festas e santos.
Aprendi muito lendo seu escrito... maravilhoso... Acredite que, ano que vêm, seus mastros terão mais três companheiros, colocados também em frente de minha casa.
Parabéns! Sucesso!
Norália

Rita Elisa Seda disse...

Norália, vamos nos comprometer a fazer desse simbolismo junino a união entre nós, que amamos o folclore. O ano de 2012 estaremos juntas nessa missão, vamos fotografar, registrar e colocar no blog. Beijos, querida amiga, felicidades e a paz!

norália disse...

Cara Rita, combinado então... A casa onde passo mais tempo, é no mato e a igrejinha do bairro é dedicada a São Pedro.Farei sim, o que combinamos. Tenho aqui material para fazer estandartes para esses santos... vou começar por agora.
Mas, primeiramente, confesso que copie seu texto e está nos meus arquivos. Como disse, nesse texto seu aprendi muita coisa que não conhecia...

Norália

Flavia&Folclore disse...

Que linda essa manifestação e maravilhoso esse registro!!!
Você tem mais informações e fotos sobre?
O trabalho de Educação Patrimonial pode contribuir muito para desenvolver a consciência e o reconhecimento dos nossos Patrimonios Culturais e seus valores!
Venha tomar um café com a gente no Museu!
Beijos,
Flavia

Rita Elisa Seda disse...

Oi Flávia. Eu tenho registro em fotos e depoimentos dos moradores dessa região, inclusive o porquê de usarem a capororoca e a quaresmeira como árvores símbolos para esse marco. Qualquer hora vou aí tomar um café com vocês. Vi que haverá uma oficina a respeito de Preservação e Restauro do Patrimônio Arquitetônico em São Luiz, pretendo aparecer por lá, pois estarei na região. Beijos, felicidades e a paz!