PALAVRAS DE SEDA

Escrever é um ato solitário, é colocar-se em palavras. Palavras são como folhas de plátano soltas ao vento... em direção aos novos horizontes, voando irreverentes sem cordas para serem puxadas e sem lugar determinado para pousarem... sempre a favor do vento.
Assim é o ato da escrita, deixar fluir palavras que, voando devagar, ao caírem, adubarão terras distantes.

















































































































quarta-feira, 14 de julho de 2010

NO FUNDO DA LATA

De janeiro ao mês de abril de 2009 escrevi para o jornal Visão Vale algumas crônicas sobre um lugar específico da África, uma cidade chamada Lucapa. Resolvi publicá-las aqui no meu blog, já que a euforia da Copa do Mundo de Futebol passou.  Muito mostraram da África do Sul, mas, a precariedade do centro do continente não foi exibida. Lucapa é um lugar mágico, onde a alegria soma-se à riqueza da cultura africana. Espero que vocês gostem.




Diante de uma fotografia eu repenso os valores femininos. Vejo uma menina, uma linda menina africana. Seus cabelos estão trançados com miçangas coloridas. Sua roupa é branca, vestido de corpo de renda e fita amarrada na cintura. Uma bela menina... perto dela, sentadas no mesmo banco há mais três meninas. Todas lindas, quase da mesma idade, somente uma é bem mais moça. E tem uma pequenina, de pé, junto a elas. São as meninas de Lucapa.


Há poucos dias o homem branco, ou como elas o chamam: TIMBARE, o barriga branca! sentou-se com elas numa rua empoeirada de Lucapa, conversaram muito e, depois, ele lhes entregou uma bala.


Agora eis elas ali, vestidas com roupa de domingo, roupa de festa para a missa matutina, na igreja de Nossa Senhora de Fátima. Nessa foto há um flagrante, uma cumplicidade. O objeto de desejo é uma lata, uma lata redonda, um tesouro. Tão precioso que não a esquecem em qualquer canto, ou a deixam em casa. Em todo lugar aonde a menina vai, a lata a acompanha.


Durante a missa por várias vezes a lata foi aberta e as meninas contemplam o conteúdo. Algumas se abaixam sobre a lata, colocam a tampa na frente, para ninguém olhar, e depois saem satisfeitas. É claro que todos olham, os espectadores estão em toda parte. Todos sabem do que se trata, mas nem todos são conduzidos ou se conduzem até a lata.


E, de longe, o homem olha a cena. Relutante, fica espiando por entre olhos e questiona o que será da vida dessas lucapenses. As meninas são sérias, sérias demais para a idade delas. A maioria delas quando ficam mocinhas têm filhos, isso é normal, afinal mulher só prova que é mulher se tiver um filho. Essa mentalidade é um norte para elas. Lindas, pele reluzente, lábios grossos, olhos expressivos, cabelos bem cuidados, nem magras nem gordinhas, simplesmente lindas. São mulheres que herdaram a garra africana de lutar e sobreviver. Aproveitar aos poucos o que a vida lhes dá, saciar a sede com pequenos goles que pingam de uma torneira pública. Meninas que ajudam a mãe a cuidar dos filhos e a descascar mandioca. Meninas ‘mulheres’ que têm o olhar doce de quem sabe viver a cada momento, tirando as partes mais belas, aproveitando em dose homeopática as alegrias, e sorvendo-as aos poucos, deixando um pouco para o outro dia. Sim, aquelas meninas lucapenses são fibras tecidas na hierarquia de mulheres fortes.


A foto revela o olhar, o espanto sem estar assustada, o grito calado na boca semi-aberta. A menina segura a lata com firmeza, a da ponta do banco coça a cabeça, seu olhar é um pedido sem palavras. A primeira menina olha com uma bondade lúdica. A pequena menina, de pé, tenta pegar a lata, olha fixamente como quem está diante de um tesouro. A terceira menina olha para frente, seus olhos não demonstram angústia, esperança ou sofrimento, simples-mente ela contempla um vazio que dói na alma. Todas abriram a lata. Todas sabem os segredos contidos na lata.


E, o barriga branca, olha de longe os encantos desse tesouro. Ele vem com a câmera. Elas o vêem se aproximando, sabem que ele vai fotografar. A lata fica fechada, alguns olhares direcionados a ele. A pureza quer a lata, quer abri-la. A outra não vê os tesouros da lata. As pequenas mulheres de Lucapa sabem do tesouro; um tesouro agraciado de fragmentos infantis. Com aquela lata serão sempre meninas. Sem a lata, mulheres!


Ele aproxima-se e registra a cena. Elas nem ligam. Olham para os olhos dele, com tudo que almejam na alma. Não precisam abrir a lata para ele fotografar o conteúdo, pois ele já sabia que ali dentro há um pedaço de boneca de pano, algumas bolachas velhas e o restinho de uma bala. E, que, a cada hora um vai lá e dá uma lambidinha na bala. Esse é o segredo, essa é a delícia infantil... lamber a bala que está no fundo da lata.

Rita Elisa Seda - para o jornal Visão Vale - http://www.visaovale.blogspot.com/
Matérias (África)
Março/2009

10 comentários:

Hannah Andrade disse...

Adorei o texto! Pude estar nesta missa por alguns instantes...

Bjs

Chris Amag disse...

Essa é a verdadeira felicidade, o que torna a vida doce...

Criança é criança em qualquer lugar, são verdadeiras e cheias de segredos inocentes.

Lindo texto! Que bom que compartilhou conosco.

Bjs
Chris

Renata disse...

Lindas e sábias palavras... mais ainda doces, encantadoras, nos levam a viajar e reviver junto este momento que deve ter sido único para vocês... pude ver o wilson tirando a foto e você Rita observando com o olhar carinhoso e sábio que é só seu!

Silvinh@ disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Silvinh@ disse...

Mais uma vez, tenho que parabenizá-la Rita Elisa, por seu maravilhoso texto.
Você descreve essa foto com muita clareza. Com um sentimento e amor,que é só seu.
Pude imaginar cada criança, cada cena, como se estive observando-as bem de pertinho...
Rita Elisa, desejo a você muita Luz do Espírito Santo, sempre, sempre!!!!
Beijos.... Silvinha

Rita Elisa Seda disse...

Querida Hannah essa missa foi mesmo especial. Beijos.

Rita Elisa Seda disse...

Chris, verdade que criança é criança em qualquer lugar, a diferença está na maneira com a qual ela é tratada pelo adulto.
Quem conduz as crianças, somos nós! Felicidades e a paz! Beijos

Rita Elisa Seda disse...

Renata querida, sei o quanto cuida de crianças, já tive a oportunidade de vê-la com muitas crianças e, a partir dali, soube o quanto você é querida pela petizada. Continue no seu trabalho de educação, você é ótima no que faz. Felicidades e a paz. Beijos

Rita Elisa Seda disse...

Silvinha querida, eu amo a fotografia como um tipo de arte. Para escrever preciso ter a imagem do que transponho para um papel. Sou muito visual, por isso gosto de fazer leitura fotográfica. Que o Espirito Santo a ilumine também. Beijos, felicidades e a paz!

Silvinh@ disse...

Fotografia???
Bela arte, Rita Elisa!!!
A arte de fotografar, sem a sensibilidade de quem fotografa, não existe.
Que sensibilidade, hein!!!
Parabéns!!!! Belo trabalho!!! Bjs...