Todo ano, na data natalina, entre os homens, havia o rodízio para o Papai Noel. Naquele ano era a vez de meu irmão Júnior. Houve programação para a festa natalina. Tudo planejado nos mínimos detalhes.
A família resolveu que daquela vez o Papai Noel não sairia pelas ruas do centro da cidade distribuindo saquinhos de balas, escolhemos um bairro carente e, um mês antes, cadastramos as famílias do bairro para entregar presentes no dia de Natal.
Tudo certo. Fomos a São Paulo e compramos bolas, bonecas, bambolês e caminhõe-zinhos. Na véspera do Natal ainda arrumávamos os saquinhos com balas, pirulitos, chicletes, lembrancinhas, pipocas e salgados. Um inteira/ação familiar feita com muito amor e carinho. Tudo certo, nada podia dar errado, controlamos todas as variáveis.
Na tarde do dia 25 de dezembro a família toda acompanhou a caminhonete que levava o Papai Noel, de pé, acenando, jogando balas e dizendo Feliz Natal para todos por onde passava. Tudo era deslumbramento. Alegria geral. Uma romaria de carros familiares seguia o cortejo.
Expectativa.
Chegando ao bairro de periferia, tudo sob controle, cada família esperava no portão de sua residência, assim não haveria tumultos. O lema era esse: Papai Noel só vai passar nas casas onde a família estiver do portão para dentro. Assim teria tempo de bater palmas ou de entrar um pouco, pelo menos, na varanda ou jardim da residência.
Meu irmão foi e... é! magnífico Papai Noel. Eu o acompanhei em tudo, fotografando cada gesto, cada entrega de presente, cada abraço e cada beijo. De casa em casa, debaixo de um sol escaldante, o Bom Velhinho nem ligava para o calor, pois a alegria de ver os olhinhos das crianças brilharem ao receberem os presentes era um alento para o coração e um refrigério para a alma. Eu não perdia uma cena sequer. Fotografava tudo, afinal tudo estava saindo como previmos, sem mistérios, sem contratempos, tudo certinho.
Na ultima rua, quase na ultima casa, uma família (como todas as outras) esperava na varanda. Papai Noel disse um Feliz Natal para todos. As assistentes do Bom Velhinho, disseram o nome das crianças, grifadas na lista com o nome da rua e numero da casa.
Duas meninas, dois bambolês, duas bonecas e muitos saquinhos de bala. Meu irmão entregou, afagou a cabeça, recebeu beijos... foi quando a mãe avisou: "Pai Noé, priciso dum presenti pro meu minino mais novo!" Meu irmão me olhou. Eu pisquei para ele e sorri, confirmando que havia brinquedos sobrando. "Pai Noé, posso trazê meu minino procê presentiá?" Meu irmão disse que sim.
Pedido.
Vieram a mãe e uma criança pequena. Um menino enrolado em cueiro e manta por cima. "Pai Noé, cabamo de chegá do hospitá, meu minino vingô tem uma semana, ele tá duente, muito duente, os médico fizêro de tudo pra salvá ele, mais ele tá fraquinho, fraquinho... cumé que hoje é Natar os médico dexaro eu trazê ele pra passá dia de festa cum a famia. Eu tô boa. Só meu minino é que tá ruim, ruim memo. Peço pro sinhô... Papai Noé... peço uma bença ispeciá pro meu minino, cridito nocê Pai Noé, cridito na sua bença... meu minino careci di bença, ansim meu minino vai sará di veiz..."
Meu irmão me procurou no olhar, vi em seus olhos toda bênção do mundo - amor! Ele colocou as mãos em cima da cabeçinha coberta por uma enorme toca azul, e orou. Foi uma oração rápida e comprida ao mesmo tempo.
Rápida porque a criança precisava ir para dentro da casa... começava chover. Comprida porque o tempo pareceu parar. O sol escondeu-se por detrás de uma nuvem de chuva, os pássaros calaram-se, as crianças que brincavam na rua aquietaram-se, os cachorros pararam de latir, escutei apenas a minha respiração em suspiro dobrado.
A paz.
Meu irmão retirou a mão a qual a mãe beijou insistentemente dizendo "brigado". Depois, cabisbaixo, foi até a caminhoneta, entrou e ali ficou em silêncio. A chuva veio forte, tivemos de nos recolher, entrei no carro. Olhei para meu irmão e vi nele a paz.
Aquele Natal me marcou. Hoje sei que mesmo quando pensamos que tudo está detalhadamente organizado, alguma coisa poderá sair do controle e, para isso, não existe regra, só existe algo que encontrei no meu irmão... a sensibilidade do amor! Foi o melhor presente que vi um Papai Noel dar em um dia de Natal.