PALAVRAS DE SEDA

Escrever é um ato solitário, é colocar-se em palavras. Palavras são como folhas de plátano soltas ao vento... em direção aos novos horizontes, voando irreverentes sem cordas para serem puxadas e sem lugar determinado para pousarem... sempre a favor do vento.
Assim é o ato da escrita, deixar fluir palavras que, voando devagar, ao caírem, adubarão terras distantes.

















































































































segunda-feira, 12 de julho de 2010

RESENHA DE BENILSON TONIOLO SOBRE O LIVRO CORA CORALINA RAÍZES DE ANINHA


Resenha: Benilson Toniolo


AS DORES E DELÍCIAS DE UMA GENUÍNA ESCRITORA BRASILEIRA

Em “Raízes de Aninha”, Rita Elisa Seda e Clovis Carvalho Britto apresentam um panorama detalhado e primoroso da vida e da obra de Cora Coralina.

Ao se deparar com “Raízes de Aninha” pelas estantes das livrarias, o leitor provavelmente pensará: ‘outra biografia açucarada e despretensiosa da boa velhinha goiana, em franca fase de beatificação’. Afinal de contas, o folclore que se formou à sua volta, e a simpática foto na capa, fazem questão de remeter exatamente a isto: Cora Coralina é aquela tia do interior que dedica o que resta de sua vida aos parentes e aos doces caseiros.

Ocorre que, ao contrário do estilo que grassa na literatura contemporânea, este livro esmiúça de forma imparcial o que foi a vida de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas: suas lutas, seus sonhos, sua dedicação à família e à sobrevivência diária, seus defeitos, sua -quase inacreditável- fé na religião e no trabalho, e a literatura a refletir tudo isto -sua essência como ser humano, como intelectual e como mulher. Linha a linha, página a página, o leitor não raramente se surpreende com a dedicação e o afinco dos autores em constituir uma obra profunda, fundamentada, minuciosa, ética e realista, com sólidas bases de pesquisa através de fotos, documentos e depoimentos, sem a ordinária preocupação, tão comum em trabalhos desta natureza, em endeusar a memória do biografado.

Clóvis e Rita discorrem com tranqüilidade sobre passagens delicadas da vida de Cora, como sua infância e a relação com o marido -tratadas quase como um tabu pelos leitores- sem perder a característica documental e o “distanciamento” da obra para com a imparcialidade da narrativa, fator fundamental para que o leitor tire suas próprias conclusões.

Ao fim de suas 454 páginas, “Raízes” deixa para o leitor as lições de uma mulher que reuniu, em uma só existência, luta, amor, dedicação ao trabalho e aos filhos, lealdade, amizade, honestidade, engajamento político, integridade intelectual, originalidade artística e um grande comprometimento para com tudo que fosse importante para a sublevação dos menos favorecidos.

Mais do que gostar ou não da poesia de Cora Coralina, Clóvis Britto e Rita Elisa Seda nos possibilitam experimentar mais uma vez a célebre citação de Milton Hatoum, em seu aclamado romance “Dois Irmãos”: “ninguém se liberta só com palavras”.

"Raízes" se constitui, finalmente, em uma obra que trata da luta de cada um de nós pela própria sobrevivência -e pelo sagrado direito ao trabalho.

Cora Coralina - Raízes de Aninha
Autores: Clóvis Carvalho Britto e Rita Elisa Seda
Idéias & Letras, 2009.

Benilson Toniolo
Poeta, cronista, contista,  membro da Academia Jordanense de Letras.

Um comentário:

Inajá Martins de Almeida disse...

Querida biógrafa Rita
O resenhista conseguiu expressar o que muitos leitores gostariam de escrever - eu inclusive. Já nas primeiras leituras, percebi que aquela, ou aqueles, que escreviam não se portavam simplesmente como biógrafos comuns. Conhecia pouco sobre Cora Coralina, mas meu filho, talvez movido pela foto - muito semelhante com minha mãe, se tivesse vivido e envelhecido um pouco mais, ou até quem sabe, conhecendo meu perfil de adentrar os personagens e esmiuçar sua vida, trouxe-me o livro, dizendo "- é sua cara alguma", o que me deixou feliz por vários motivos. Primeiro por se tratar de um presente de um filho; para uma bibliotecária ganhar um livro não há presente melhor; segundo por ele saber meus gostos e predileções e por último por perceber ser a minha cara. Esta é a razão por que ávida a leitura tem se apossado do meu ser. Realmente não é uma simples biografia, acostumados fôramos ler, mas nos faz adentrar o universo da personagem Cora Coralina, querer percorrer seus ambientes, participar do seu dia a dia, das suas flores, das suas árvores, dos seus doces, dos seus filhos, tão amados. Cora a mulher guerreira, que nos espelhamos um pouco - eu principalmente - que também passei por lutas para educar meu filho sem a presença de um pai. Se Cora Coralina ficou como aquela mulher guerreira, desbravadora como seu ancestral, altamente espiritualizada, Rita não faz por menos ao nos legar uma das literaturas mais envolventes, num emaranhado de títulos que se avolumam nas estantes, mas que se perdem no vazio do conteúdo e da frivolidade. Nós como leitores, temos só que agradecer tanto cuidado e carinho / Um beijo parabéns e sucesso sempre.