PALAVRAS DE SEDA

Escrever é um ato solitário, é colocar-se em palavras. Palavras são como folhas de plátano soltas ao vento... em direção aos novos horizontes, voando irreverentes sem cordas para serem puxadas e sem lugar determinado para pousarem... sempre a favor do vento.
Assim é o ato da escrita, deixar fluir palavras que, voando devagar, ao caírem, adubarão terras distantes.

















































































































quarta-feira, 6 de outubro de 2010

MINHAS ÁRVORES FAVORITAS

Recebi hoje esse e-mail que tanto me mostra que escrever sobre árvores é lançar sementes em palavras. Eis a fecundação de uma na Rebrinha: Norália de Mello Castro.

foto: Norália de Mello Castro


PARA ESCRITORA: RITA ELISA SEDA


COMENTÁRIO: Semana passada, a Rebra colocou mensagem sua, sobre o dia da árvore e todo o seu trabalho pró Natureza. Me encantei. Me emocionei. Parabéns! Magnífico trabalho. E refleti: qual seria a minha árvore? E saiu um texto que coloquei hoje na Rebra, inspirada por esta pergunta.
No mais, obrigada por me mostrar seu belo trabalho.
Abraços,
Norália.


Daí eu cessei a página da Norália na REBRA, encontrei esse belíssimo texto. Sei que irão gostar:


                                                         Minha Árvore


Outro dia, recebi uma mensagem, um trabalho excelente da escritora sobre as árvores. Ela estimulava que contássemos a história de nossa árvore. Dizia que todo mundo tem uma história única de árvore.
Eis um tema que me agrada! E muito! Fiquei pensando no que escrever.
Lembrei-me de Graciliano Ramos, que descreveu magistralmente sua árvore, muito usada por ele em seus livros: uma mangueira no quintal da casa. Quando criança, ele brincava ali, inventando histórias e brinquedos com as pedras; era onde lia Robson Crusoé, sempre debaixo da mangueira. Já adulto, era onde ele gostava de ler romances. Um de seus personagens também ficava sempre debaixo da mangueira e, de lá, descobriu a força do desejo, observando ardentemente a jovem vizinha... Sonhos e desejos foram delineados a partir desta árvore.
Então, o que eu poderia escrever sobre a minha árvore? Não tive uma árvore cultivada na infância, mas ao longo da vida tive várias árvores. Contarei a história das minhas árvores.
Nasci e fui criada numa Capital, dentro de um apartamento. E nada melhor do que subir no Ford preto de meu pai, ir espremida ali, em direção à fazenda de meu avô. Essas visitas eram almejadas, desejadas. A alegria se instalava em mim e nos meus irmãos.
Lá chegando, era uma debandada só: corridas pelas gramas das longas extensões de terra. Alojar-se em cada árvore frutífera e apanhar as frutas da época. Não havia jabuticabeira ou goiabeira que ficasse livre de minhas artes... Eu adorava subir em árvores e me sentir um passarinho alcançando alturas.

Mas, tinha lá um coqueiro especial. Muitas vezes, eu vi este coqueiro florido e amava olhar para ele. Perguntei, um dia, à minha mãe como aquelas flores tão lindas foram parar num coqueiro tão alto. Ela me respondeu:
- Esse coqueiro era pequeno quando sua avó plantou nele aquela orquídea. Não é maravilhosa?
- Sim! – eu respondia.
Ela acrescentava:

- O coqueiro cresceu alto assim como você está vendo, e foi levando a orquídea com ele, lá para cima!
E eu ficava imaginando minha avó plantar orquídeas no coqueiro, e me deliciava de ver as belas flores, lá no alto, a encher plenamente a visão de um coqueiro, no meio de uma grama, perto de um curral, a ter uma tão bela flor nas alturas.
Anos mais tarde, numa época difícil, fui me refugiar na casa da chácara da família. Eram dias difíceis e perigosos. Meu maior prazer era sentar-me de frente para aquele abacateiro enorme, de tronco maior do que duas pessoas contornando-o num abraço. Tronco negro, majestoso. Galhos robustos. Folhas muito verdes.
Eu o olhava e sentia uma paz que não sabia explicar: queria muito comer um abacate dali. Mas não vinha. Há muito o abacateiro parara de produzir, talvez pela idade, de mais de 50 anos. Talvez por falta de companheira, que lhe ajudasse a reproduzir. Só sei que não dava mais frutos. Sua sombra e seu delinear esguio era um bálsamo assim mesmo.
Por muito tempo, cultivei essa árvore esplendorosa... Ela ainda está lá até hoje.
Mas, a minha árvore preferida – na realidade – são duas, que amo de paixão.
Numa manhã, descendo do terceiro andar do prédio onde moro, segurando a mão de um sobrinho-neto de dois anos e meio de idade, tive de dar uma parada. O menino que chupava uma laranja, me fez parar e eu o vi retirar da boca uma semente da laranja. Não querendo jogar a semente no chão, ele a colocou num vaso que estava num canto da escada.
Dias depois, vi que nascera um pé e, com o passar do tempo, vi que era um pé de laranja. A semente que meu sobrinho-neto fixara ali no vaso era uma árvore. Levei-a para a casa de campo e plantei-a na terra: transformou-se numa linda laranjeira que se enche todos os anos de flores e frutos.
Aquele anjinho loiro e ingênuo, tão amado e querido, me dera, sem o saber, o precioso presente de uma laranjeira! Lembro-me sempre de seu gesto e desse momento mágico, simples e terno, de uma criança maravilhosa que, hoje, se tornou num belo homem.
Curto a minha laranjeira todos os dias em que lá estou!
A segunda árvore preferida é uma jabuticabeira que se transformou num belo e poderoso bonsai. Está ela lá, num grande vaso, com seus 80 centímetros de altura. Olho-a sempre e rejubilo a alegria de viver.
Essa jabuticabeira nasceu debaixo de um degrau de uma escada de granito preto, na entrada da casa de meu pai. Ele se sentava ali sempre, deliciando-se com aquelas frutas pretas, que tanto amava. Num descuido, uma semente dessa fruta foi para debaixo da escala e lá nasceu. Retirei um pé minúsculo dessa fruta, que crescera e permanecera ali por muito tempo e, para surpresa de todos, sua raiz alcançou mais de dois metros de comprimento, enquanto o pé não tinha mais de 15 cm. Temerosa da árvore não resistir ao corte daquela raiz, com muitos cuidados, plantei-a num vaso. Ela vingou, tornou-se adulta, mas permaneceu pequena: um maravilhoso bonsai.
Ao olhá-la, vejo sempre meu Pai, que nos deixou há mais de duas décadas.
Eis a minha árvore preferida, de todas que tive por companhia, ao longo da vida. O bonsai, o meu pai.

Belo horizonte, 26 de setembro de 2010

NORÁLIA DE MELLO CASTRO
http://www.rebra.org/escritora/escritora_ptbr.php?assunto=texto&id=1626

7 comentários:

Antonio Machado disse...

LIndo texto
Muito bem redigido sem perder, no entanto, a naturalidade.
Parabéns
Antonio Machado

SONYA MELLO disse...

Texto maravilhoso, tocante, me levou à minha infância, pois, como Graciliano Ramos, também tive uma mangueira no meu quintal... Era para ela que eu contava meus segredos, era em seus galhos que subia para fugir da ira da minha mãe quando aprontava "alguma", depois de tempestades, espiava na porta da cozinha e quando a chuva diminuía, disputava com meus irmãos e minha mãe, as mangas maduras que despencavam com os ventos fortes... Amei ter me lembrado de tudo isso! Que pena que naquela ´´epoca, 1982, eu não tinha uma câmera digital pra registrar a beleza e majestade de minha Mangueira! Abraço. Sonya Mello

Rita Elisa Seda disse...

Olá Antônio, obrigada pelo seu comentário, realmente o texto não perdeu a originalidade. Felicidades e a paz!

Rita Elisa Seda disse...

Sonya,querida amiga, assim como Rubem Braga gostaria de ter um cajueiro em cima de meu ap... hehehhe! Postei o poema que você me mandou. Obrigada, amiga, amei! Beijos, felicidades e a paz!

Anônimo disse...

Rita Elisa, se você trouxe meu texto para o seu blog, é porque gostou. Estou contente por isto.Ainda mais por ele está coberto de folhas outonais... lindo fundo.
Abraços,
Norália

Rita Elisa Seda disse...

Gostei sim, Norália, pois você nos dá a visão de um bonsai, algo que às vezes parece simples, mas que necessita de mais cuidado do que uma árvore que cresce sem interferências humanas... já o bonsai, precisa de carinho diário. Eu tenho um em minha sala, é meu pinheirinho da alma. Beijos, felicidades e a paz!

Sonya Mello disse...

Rita, plante o cajueiro, e se ele crescer demais, vai abraçar seus vizinhso... Já imaginou? Meu pequeno-grande cajueiro, vivo só pensando em ti...

Bj