PALAVRAS DE SEDA

Escrever é um ato solitário, é colocar-se em palavras. Palavras são como folhas de plátano soltas ao vento... em direção aos novos horizontes, voando irreverentes sem cordas para serem puxadas e sem lugar determinado para pousarem... sempre a favor do vento.
Assim é o ato da escrita, deixar fluir palavras que, voando devagar, ao caírem, adubarão terras distantes.

















































































































domingo, 5 de dezembro de 2010

QUE BICHO É ESSE?

Há três meses, em setembro de 2010, fui alertada pelos alunos da Sala de Leitura Rita Elisa Seda, junto com a profª Ivani, que havia no lago próximo à escola um animal diferente. A questão foi levantada pelos professores e alunos da E. M. E. F. Geraldo de Almeida: ‘Que bicho é esse?’.


Foi nesse entusiasmo da procura que vi o quanto, para os estudantes, valem os meios de comunicação em diversas vertentes. Foram procurar a resposta em jornais, revistas e livros. Depois foram para a Internet. Coletaram uma gama de informações. O próximo passo seria ir ao lago rever o bicho.



Fui junto com as professoras e alunos. Ficamos ali horas e horas, na tentativa do bicho sair da água e se mostrar. Os alunos, quietos, aguardavam, também, na espreita de ver o bicho mais de perto. Até que ele saiu da água, mas ficou longe, mesmo com minha câmera fotográfica acoplada com uma lente zoom 300, não foi possível ter uma boa visualização. íamos de uma margem à outra na intenção de chagar perto do animal. Mas, o bicho nadava até algum lugar inacessível. Os alunos ficaram felizes em ver o desempenho daquele bicho dentro d’água. Até que voltaram para a escola. Resolvi ficar, tentar tirar uma boa foto do bicho.

Morador contando a história da captura do bicho: 'é um bicho grande, desse tamanho aqui!'.

Foi quando apareceu um senhor com um saco de estopa, ele mora ali há mais de 50 anos. Perguntei a respeito do tal bicho, ele falou que aquilo era uma capivara e que a carne é muito saborosa. Sempre caça alguma para comer, pois a carne é isenta de gordura. Também comentou que certa vez levou um filhote para casa no intuito de domesticá-lo, porém o animal ficou fraquinho, não comia, até que o homem devolveu-o ao habitat natural.

Nisso veio uma moradora que tem residência ao lado do lago. Ela disse que aquele bicho era uma lontra e que, à noite, o animal mais velho, geralmente o macho, canta alto, como se fosse um lamento triste, várias vezes ela acordava com esse barulho, depois se acostumou. Com isso as pessoas não passam mais à noite por ali, pensam que é fantasma, pois não vêem nada, nem mesmo o bicho.

Realmente o tal bicho faz uma represa com galhos e folhas e ali se esconde, pude constatar isso, porque depois que as crianças se foram, saiu de uma barreira de folhas e troncos à margem, alguns filhotes acompanhados dos pais. Um deles, provavelmente o pai, enorme, maior que um cachorro do tipo Buldogue.

A profª Ivani retornou ao lago, era fim de atividade escolar, as crianças foram cada uma para sua casa. Eu continuei ali, parada, olhando o lago. Foi quando nós vimos o bicho mais de perto. Eu fotografei-o, e o danado se mostrava todo, fazia acrobacias, pulava, só faltou falar: ‘tira uma boa foto minha’. Fo uma alegria, pois pela primeira vez vimos o rabo do animal... enorme. Afinal, capivara não tem rabo!


A foto foi mostrada para as crianças. Mas, a dúvida ainda persistia: seria uma capivara geneticamente modificada? Seria um rato gigante? Seria uma lontra? Que tal um castor? Poderia ser o Ratão do Banhado? Com tantos questionamentos procuraram respostas novamente nos meios de comunicação. Mas, creiam, hoje em dia os estudantes não aceitam as informações como algo enlatado, pronto para ser devorado, eles questionam... e os alunos ‘queridos’ que acompanhavam essa maratona investigativa não se deram por satisfeitos.
Dessa forma, foram em excursão até o parque da cidade para ver as capivaras. Ali conheceram muitas capivaras e chegaram à conclusão de que o tal bicho não era uma capivara.


Foram controlando as variáveis, afunilando as conclusões, até que por quase unanimidade concluíram que aquele era um Ratão do Banhado. Então precisavam ver um. Pronto. Viajaram durante horas até Piracicaba, horas e horas de São José dos Campos até ao Zoo de Piracibaca, onde viram o Ratão do Banhado empalhado, e assim puderam ter um contato físico com o animal. Foi uma alegria sem fim.

Ao retornar fizeram o Jornal da Mural, criação gráfica desse grupo de alunos ‘queridos’ da escola, especialmente meus. Com fotos da investigação ao animal que se banha no lago perto da escola. Quem redige o Jornal Mural Faz Diferente (impresso e fixado no mural da escola), faz toda diagramação é uma equipe competente, Gabriela é a digitadora-mor, além de produzir textos belíssimos está sempre de bem com a vida.

Eu e Gabi, a redatora do Jornal Mural Faz Diferente.

Nesse contexto investigativo as informações foram padronizadas dentro do cotidiano do grupo de estudantes. Em primeiro lugar eles voltaram seus olhares para o entorno de onde moram, o bairro Pousada do Vale: o lago, a nascente, as árvores e os animais. Com minhas crônicas e meu resgate a respeito das árvores joseenses os estudantes ficaram a par de várias árvores e a que mais gostaram foi a guapuruvu, por causa da lenda e da mística em torno da amizade.

Aluno entregando a colheita que ele fez de sementes.

Na Sala de Leitura Rita Elisa Seda, os alunos fizeram questionamentos a respeito de bichos de estimação. O que é denominado animal doméstico? O que pode ser domesticado? Qual animal eu tenho em casa? Foram algumas das perguntas as quais tiveram respostas.


Aluna da EMEF Geraldo de Almeida junto com seus animais de estimação.

Alunos levaram fotos de seus animais de estimação e houve confraternização de informações a respeito desse e daquele bicho, aprendizados de muitos anos. Crianças e jovens que convivem diariamente com cachorros, gatos, galinhas e gansos souberam mostrar o quanto respeitam os bichos.


Essa conscientização em prol da comunidade mostrou que nesse mundo globalizado estamos preocupados com a salvação de um animal, ou espécie arbórea do outro lado do planeta, desviando o olhar para onde vivemos. Assim os que estão léguas de distância se preocupam com questões eminentes à comunidade onde há um diferencial social, cultural e monetário. Supondo várias respostas, sem entender o contexto. Os alunos aprenderam que o melhor é resolver algumas problemáticas do entorno de onde moram e estudam, gerando uma conscientização ambiental para o bem viver, com a certeza empírica construída em base na sinestesia de cada aluno. Eles olharam, tocaram, escutaram o animal e, agora sabem diferenciá-lo de uma capivara, de um rato, de uma lontra, pois ele é um Caxingui.

Profª Ivani e alunos com o banner que foi apresentado junto ao projeto na palestra em Osasco.

O projeto MudaMundo ganhou força, o que é abençoado por Deus vai além dos limites impostos pelo homem. A Secretaria de Educação de São José dos Campos ficou ciente de toda essa movimentação. Dessa forma, nos dias 24 e 25 de novembro, o projeto foi apresentado no Centro de Formação de Profissionais de Educação de Osasco, em um evento da UNDIME/SP e o Instituto Paulo Freire, sendo aclamado com louvor. Mostrando assim que é possível conscientizar alunos ‘queridos’ da escola com o diferencial chamado ‘cuidado’. O cuidado entre eles gera uma onda de amor que atinge a região onde moram.


Para finalizar esse projeto que acompanhei de perto em três meses de pesquisas e conclusões, nessa sexta-feira, dia 03 de dezembro, com o auxílio da Guarda Municipal, da Corporação do Corpo de Bombeiros, da Secretaria de Educação de São José dos Campos, a SEMEA (Secretaria do Meio Ambiente), da Associação de Bairro, da REVAP – PETROBRAS (Refinaria Henrique Lage), os alunos da E.M.E.F. Geraldo de Almeida, as crianças da Creche do bairro Pousada do Vale e moradores desse bairro, estivemos em passeata em prol da Ecologia local.




Alunos colaram nos postes avisos de alerta contra o desmatamento, pesca e poluição.



 Foram plantadas três mudas da árvore guapuruvu.

Alunos e professores plantando uma muda de guapuruvu.




Morador do Pousada do Vale exibe sua semente de guapuruvu.

 Moradores do bairro ganharam a semente do guapuruvu como aliança fraterna em prol do meio ambiente.


Dona Terezinha Pinheiro que tanto luta pela conscientização dos moradores do bairro Pousada do Vale, conversa animadamente com a diretora da EMEF profª Graça.

Alunos usavam pulseiras ‘amigos do caxingui’, moradores ganharam semente de guapuruvu para estreitar os laços de amizade no bairro.



Alunos acomodados na Sala de Leitura Rita Elisa Seda para receber a pulseira 'Amigos do caxingui'.

Fiquei emocionada, agradeço aqui à direção da E.M.E.F. Geraldo de Almeida , profª Graça, todo corpo docente da escola que deu enfoque diferenciado na grade de matérias para o assunto aqui abordado, os funcionários da escola e os alunos que souberam levar adiante, com empenho, esse projeto. O resultado é ótimo. Dentro dele cabem todas as manifestações de amor, paz, união, carinho e força.



No final desse lindo dia, depois de horas debaixo de sol quente, com a satisfação da união de uma corrente para o bem, com a manifestação popular e o apoio de centenas de alunos, voltamos à Sala de Leitura, e lá, a profª Ivani me falou: 'Agora vou fazer algo que meus alunos fazem aqui o tempo todo, vou me deitar nestas confortáveis cadeiras, é assim que eles ficam à vontade para a leitura'. E deitou-se, com toda alegria. Eu, aproveitei e tirei uma foto, ela notou... e ficou rindo de minha ousadia.


Profª Ivani em momento de descontração.

Segundo momento de descontração, professores e funcionários da EMEF Geraldo de Almeida comendo salgadinhos deliciosos e tomando suco.

Meus queridos amigos da Sala de Leitura Rita Elisa Seda, estudantes na E.M.E.F. Geraldo de Almeida, no bairro Pousada do Vale, amo vocês, pelo que me ensinaram nesses três meses de projeto.


Rita Elisa Seda
Cronista, poeta, biógrafa, fotógrafa e jornalista.
Fotografias: Rita Elisa Seda

10 comentários:

Noralia disse...

Rita, parabéns por tão lindo projeto. A esperança de dias melhores está em ações assim como você coordenou. Parabéns para você e todos os alunos.
Norália

Silvinh@ disse...

Excelente trabalho, Rita Elisa!!!
Parabéns a todos os envolvidos direta ou indiretamente neste Projeto.
Um projeto atinge seus objetivos, quando há mudança de atitudes e de comportamentos. Com essa experiência que essas crianças vivenciaram, tenho certeza que os objetivos foram atingidos, com louvor.
Aqui você descreve, Rita Elisa, uma experiência, que mostra ser possível conscientizar, sensibilizar e mobilizar
indivíduos na busca de soluções para os problemas causados pelo ser humano ao ambiente, e como é possível a preservação de toda espécie, seja animal ou vegetal.
Este Projeto pedagógico, integrou as diferentes áreas do conhecimento, e colaborou para à construção da cidadania, à mudança de valores e atitudes,
para a construção de uma nova sociedade.
O ato de se tornar consciente é necessário para nosso aprendizado, tomar consciência nos prepara e evita habitos inadequados .
Mais uma vez....
Parabéns a todos!!!

Beijos, forte e carinhoso abraço!!!

Silvinha

Chris Amag disse...

Parabéns pelo belíssimo trabalho! Isso sim que é uma aprendizado contextualizado.

Espero ler essa matéria também no site da prefeitura, na parte de Educação e que tal mandar para o Jornal O Vale?

Parabéns para esse registro no Blog e para a minha querida Ivani, que conheço bem o trabalho e sei que é envolvida e empolgada.

Bjs
Chris

Inajá Martins de Almeida disse...

Rita querida de tantos e também desta.
Maravilhosa iniciativa da profª Ivani, de todos os envolvidos. Sua participação creio motiva a todos muito mais. Exemplo a ser seguido por muitas cidades. Em 1969 passei por São José dos Campos e o pouco que conheci me ficou na lembrança. Que bela cidade. Foi apenas um final de semana, mas que deixou saudade e a vontade de voltar. Quem sabe um dia! Beijos desta que também ama por demais a natureza e os animais. Tenho cinco em casa (dois cachorros e três gatos, além de muita planta)

Rita Elisa Seda disse...

Querida Norália, eu não coordenei, apenas estou integrada ao projeto. Foi ótimo procurar pistas, encontrar soluções. Aprendi muito com os jovens estudantes. Beijos, felicidades e a paz!

Rita Elisa Seda disse...

Realmente, querida Silvinha o despertat da consciência, contribui para mudança de valor ético ambiental.
Um projeto que foi desmembrando-se lentamente, com paciência e amor a Profª Ivani soube atingir a solidariedade dos alunos, devo dizer, também, da comunidade do bairro Pousada do Vale. Beijos, felicidades e a paz!

Rita Elisa Seda disse...

Querida Cris, a Profª Ivani empolga todos que com ela convivem. Uma entusiasta ecológica, uma desbravadora de 'estórias', uma 'mulher que corre com os lobos'. Aprendi muito com ela. Beijos, felicidades e a paz!

Rita Elisa Seda disse...

Inajá, volte à linda São José dos Campos, venha para o lançamento do ensaio biográfico a respeito de Eugênia Sereno. Será um prazer conhecê-la pessoalmente. Minha casa vai estar lotada de familiares no dia, mas há hoteis encantadores em toda a cidade. Aponte essa data em sua agenda para sua vinda. Beijos, felicidades e a paz.

Inajá Martins de Almeida disse...

Rita tão querida
Sou grata pelo convite. Não poderei estar nessa oportunidade. Tenho um pai com 92 anos que requer muitos cuidados, mas não faltará ocasião. Irei sim. Marcaremos futuramente.Desejo o maior sucesso para sua vida, para seu livro. Irei acompanhá-lo assim como tenho à minha cabeceira Cora Coralina, o qual não dispenso leitura constante. Maravilhoso sempre. Um beijo e continue a nos encantar com suas ricas matérias. Parabéns.

wallace Puosso disse...

Rita, tudo bem? Que projeto bacana! Que outras iniciativas envolvendo sala de leitura, professores e alunos possam acontecer sempre. Abraço!