PALAVRAS DE SEDA

Escrever é um ato solitário, é colocar-se em palavras. Palavras são como folhas de plátano soltas ao vento... em direção aos novos horizontes, voando irreverentes sem cordas para serem puxadas e sem lugar determinado para pousarem... sempre a favor do vento.
Assim é o ato da escrita, deixar fluir palavras que, voando devagar, ao caírem, adubarão terras distantes.

















































































































quarta-feira, 28 de setembro de 2011

POESIA - José Dantas Cyrino Júnior

Dia 14 de setembro, às 19h,  na Saraiva MegaStore, no Manauara Shopping, Manaus, foi o lançamento de ‘Poesia’, livro de Cyrino Júnior, um evento que  fez parte do projeto ‘Encontro com a palavra’.





‘Poesia’ reúne poemas que Cyrino escreve há tempos. A publicação foi um incentivo de amigos.
A obra aborda questões regionais, amor, humor e até política. “É uma mistura mesmo. Até porque a poesia é uma das formas de ver o mundo. É conhecimento e não ciência. Tem plástica, sonoridade, melodia da minha vivência e, como toda arte, abre as portas para o mundo”.




A recomendação que José Dantas Cyrino Júnior faz, nas primeiras páginas de seu livro, chama a atenção: “Às pessoas sem rugas por falta de riso e às pessoas com rugas por insuficiência do amor”.






 “É uma forma de sugerir que a poesia também é humor, alegria ou tristeza. Não tem que ser uma coisa romântica, lírica, precisa de ironia, inclusive”.






A capa e as ilustrações de ‘Poesia’ foram feitas pela artista plástica Bernadete Andrade, que faleceu em 2007.
“Foram as últimas telas que ela pintou. Quis homenageá-la, pois a Berna não conseguiu expor essas obras em vida. Como era minha amiga, sempre pedia meus poemas para ilustrar, mas isso não chegou a acontecer, infelizmente. Antes de falecer, ela me deu um CD com suas telas e agora eu pedi a autorização da família para ilustrar o meu livro, que aliás, é da Berna também”.










No terreiro, uma vassoura...
e um menino nu, sentado no chão,
ao lado de um cão esquálido.

Nas paredes de madeira, um par de armador...
em uma delas, manchada por uma goteira,
uma antiga pintura de Nosso Senhor.

Sobre a mesa, chamas de uma lamparina
balançam fluidas como dançarinas do ventre
e lançam fuligens que tingem as palhas da sala.

No quarto, sozinha, se embala uma criança
e o ruído da rede avança manhoso até o quintal.

Na cozinha um jirau... sobre ele um terçado de aço,
uma panela queimada e canecos de lata areados.
Embaixo, um fogareiro... e restos de carvão.

De caibro a caibro, sob goteiras de luar,
uma rede se estica por cima de um velho fogão.

Embaixo da mesa, presa às pontas de um lençol,
uma trouxa de roupas a serem lavadas à mão...
E duas pedras de anil...

Ao lado, de esmalte branco, um trincado bacio...

No canto, um pote de barro.
Na beira do pote a ponta do púcaro...
No púcaro, uma jia.

No fundo da gaveta do surrado roupeiro,
os instrumentos de um sagrado ritual:
um caco de espelho, um toco de batom vermelho
 e uma pocarina feita de uma fina louça oriental.




Mungubas


Quando plumas de mungubas
voam ao longe,
ligam à distância os amantes
e podem a qualquer instante
reviver uma grande saudade.

Por isso, preste bem atenção:
se numa noite quente qualquer de agosto,
uma pluma de munguba pousar no seu rosto,
não sopre esse corpo brando,
deixe-a na face em descanso
ela é um mensageiro zeloso
de um saudoso beijo que lhe mando.



       Arque

No princípio era o verso,
e o verso se fez frase
e habilitou nossa voz,      
e ao inverso de ser carne,
fez-se fala e cantoria.
No princípio era o verso
que fez nascer a poesia.

O verso deu vida às palavras,
deu cheiro, deu gosto e deu cor,
quando estão em harmonia,
produzem sinestesia,
o orgasmo que a poesia
pede emprestado ao amor.




Canto de Liberdade



Se prendes um passarinho

para aprender a cantar,
não lograrás por este caminho,
porque nenhum cantador cativo
é capaz de ensinar.

Abre as portas do cativeiro
e escuta a sonoridade
do canto libertador:
ninguém se educa prisioneiro,
só se educa nas asas da liberdade
e nas raízes do amor.


Epitáfio


Quando eu deixar esta vida
não me dêem de epitáfio
aquela frase abjeta,
de lugar-comum repetida:
“Aqui jaz mais um poeta”.

Quando eu deixar esta vida
- perdoem-me pela imodéstia -
escrevam de forma indelével
na testa do meu cenotáfio
este epitáfio fecundo:
“Sempre que morre um poeta,
                                                  morre um pedaço do mundo”





Para adquirir o livro POESIA de José Dantas Cyrino Júnior entre em contato:



Rita Elisa Seda
Cronista, poeta, biógrafa, fotógrafa e pesquisadora.

2 comentários:

Inajá Martins de Almeida disse...

Rita querida amiga

Realmente lindos poemas.
José Dantas Cyrino Júnior pode ter a certeza de que embora o mundo se empobreça com a partida do poeta, sua obra jamais perece. Ela se eterniza.

Rica postagem.

Rita Elisa Seda disse...

Inajá, querida, o Cyrino é um poeta/maior que mora em Manaus.
Ele leu o livro Raízes de Aninha, escreveu um poema divino em homenagem à amizade entre Cora e Drummond, entrou em contato comigo e ficamos amigos.
Beijos, felicidades e a paz!